domingo, 30 de dezembro de 2007

Retábulo

Cidade emparedada. Como se dentro da casa houvesse donzela, estendida no chão, a perscrutar, pelo ressoar dos cascos, a distância das tropas napoleónicas. Eis o pavor antigo de profanação da honra sorvido agora pelo (securitário) abandono. A cidade, foz onde definha o despovoamento de mil aldeias, emigra também na barca da morte. Enigmáticos retábulos imperfeitos, tudo o que resta.


(foto de Augusto Baptista)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O cavalo, outra vez

Nunca vi nenhum cavalo ruminar a palavra prado

*

É tão triste escrever sol

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os teus olhos

A montanha desceu
ao povoado

(nos teus olhos
não há neve, não há lobos)

domingo, 16 de dezembro de 2007

O jardineiro das virtudes

Longe da vista dos criados, misturou areia fina e estrume de burro no húmus. Mezinha capaz de enxugar a acidez do solo, nunca a memória da terra. Pela raiz, o arbusto não cedia a fabulosa bondade de florir no Inverno. A natureza, fundeada em duráveis silêncios, embargava a criativa profanidade. Apaixonado amanho, inútil o desenredo. Olha de novo a camélia, desapontado. Mestre jardineiro, que povoa de exotismo jardins e brévias da foz do Douro até à Galiza, abriga a mágoa: um criado do horto aproxima-se, avisa-o da chegada de Venâncio Euclides. Ao morgado irá vender dois pés de mirtilo na justa idade de plantio, na altura certa de oferecer as primeiras bagas, luzidias como pena de estorninho.

Quando a carqueja do Marouço sacudia o pobre agasalho de neve, Venâncio Euclides galopava, solitário, na direcção do mar. Nesse tempo, viagem de assinante ilustre além dos limites da comarca haveria de passar pelo jornal A Cabreira. “Foi à cidade do Porto, d’onde já regressou são e salvo, o nosso estimado e bom amigo Venâncio Euclides de Sales, morgado de Vila Boa da Roda”. Partia pouco antes da primeira luz, um atalho evitava a passagem pelo centro de Braga, na vila nova de Famalicão acharia pernoita. Afeiçoavam-se, pela tarde do dia seguinte, os cascos ao empedrado da cidade grande. Na Quinta das Virtudes, concedia folga e penso ao cavalo.

O horticultor e jardineiro multiplicador guia a visita, demorada. Mesmo em pleno Inverno, o viveiro desce florido quase até à margem do rio. Pára junto da camélia, não lhe afaga o brilho das folhas como é seu jeito, identifica-a sem o espanto feliz que associa às suas criações. Como se fosse mais uma camélia, por nomear ainda, da vasta colecção do Horto das Virtudes. Terá de atravessar Invernos, beber a sombras das manhãs, até exibir porte e ramos que permitam a multiplicação por alporque. Ao lado, o viçoso talhão de mirtilos alenta, por instantes, o mestre jardineiro. Ele sempre reparte a alegria quando fala da alma das árvores, dos enxertos de borbulha, ou das abóboras-de-turbante (para consumo próprio dos seus olhos) cultivadas no Peso da Régua, numa pequena quinta da mulher.

A baga de mirtilo, diz o mestre jardineiro, depura a vista.

O morgado de Vila Boa da Roda ocupava a vida na veação e, no defeso, plantava árvores invulgares no jardim e no bosque. Exige a caça perna ligeira, gesto rápido, pureza na vista. Nas encostas do Marouço, entre a Chã da Fonte e o Penedo Gaio, derribou, sem apelo nem agravo, açafates de perdigões. Havia caça, nessa época, e o acto cinegético com arma de fogo estava restrito a gente de linhagem. Venâncio Euclides e duas perdigueiras – por morte legavam o nome às cadelas seguintes – entravam no monte pela aurora, volviam no cair da tarde. E a noite tinham já por companhia quando acercavam a Vila Boa de Roda, cadelas prostradas de cansaço, o caçador aprumado, polainas polidas no mato molar. Farto cinturão. Outras tantas perdizes o criado trazia, desgasto como os cães de parar, no bornal. O tempo, inexorável, sempre deixa sinais por onde apascenta os seus rebanhos. Uma das últimas caçadas virou triste cortejo de tiros errados, e as perdizes a levantar rente ao focinho das cadelas marradas – nunca, mesmo nos primeiros manejos de caçadeira, tivera pontaria assim desafortunada.

Qual é mês da colheita dos mirtilos?

No declínio do estio, quando os dióspiros botam corpo.

Na abertura da época venatória, pensa o morgado, já a fome das aves debica os dióspiros. O mirtilo também se conserva seco, como o figo, sem esbanjar qualidades medicinais, diz o mestre jardineiro multiplicador, como se passeasse no pensamento de Venâncio Euclides. Na Inglaterra é fruto disputado pelos artífices de ourivesaria e pelas pobres artesãs da renda de bilros.

O morgado, convencido, pede instruções sobre a forma de cultivo.

Em terreno magro, protegido dos ventos da serra. Ao contrário das camélias, deve tocar o sol logo pela manhã: o mirtilo decanta a limpidez da luz.

Sem grande esforço, descativa da terra vegetal dois pés do arbusto, agasalha as raízes em musgo humedecido envolto em serapilheira.

Enquanto caminha, o morgado de Vila Boa da Roda fala das camélias do jardim e das que se acoitam no bosque sob a grandeza das outras árvores, das trasladadas do Porto e da secular Alba Plena, herança florida do avô paterno. O jardineiro multiplicador de espécies parece indiferente à palavra. E ele sempre se entusiasma a ouvir a longa história da Alba Plena, a mais bela de todas, como se esta antiga raça de camélia da China tivesse a sua marca – a pessoalíssima marca de José Marques Loureiro.

Que ruindade o morde?

Mestre jardineiro pára.

É o São João…

Retoma a passeata no imenso labirinto vegetal. O morgado fica parado, a arrebatar o espanto,

Ainda é Inverno, mestre Marques Loureiro!

Detém-se, o dono do Horto das Virtudes pára de novo. Impossível agachar por mais tempo a tormenta,

Venha comigo.

Os dois homens movem-se em silêncio, levantam aqui e além pássaros que a fome faz afoitos, atravessam talhões de figueiras, pereiras, macieiras, limoeiros, a estufa dos ananases, depois o sítio das árvores de fruto de caroço, as primeiras a mostrar flor na Primavera. Os talhões estão divididos por sebes de alecrim: casa de joaninhas que se alimentam de insectos nocivos à natureza. Emaranham-se, por fim, no vasto reino colorido das camélias. A viagem cessa rente ao alfobre de mirtilos. Mestre jardineiro apresenta a jovem camélia, apartada das outras. E entristece.

Apuro-lhe há anos o destino, senhor morgado. Todavia, os caprichos da natureza cobrem os sonhos. Mandei um homem ao Douro em busca de estrume de jerico de almocreve, misturei esse estrume com baga de sabugueiro, que o mesmo homem mercou na Granja do Tedo, e areia do mar de Moledo: mergulhei aí as raízes e poucas vezes as humedeci. Ofício inútil, senhor morgado. Podemos criar nova variedade de camélia, mas nunca, por alquimia alguma, alterar-lhe o remoto destino.

Não o entendo, mestre Loureiro. Vejo aqui uma camélia perfeita, com carácter… botões sadios, folha luzidia!

Falha um pormenor: não floresce em Junho, meu bom amigo. O sonho era esse: criar a Camélia São João, de imaculada brancura como a Alba Plena. A noite das ervas de cheiro merecia essa variedade, seria a mais genuína camélia do Porto.

No Minho também há São João. Traz o povo rama verde de pinheiro e, no largo, quando arriba a noite, faz a fogueira: na labareda purificadora junta depois ramos de alecrim.

José Marques Loureiro, o jardineiro das Virtudes, está triste. Nem a imagem aromática das chamas a roubar a noite lhe enfraquece o desgosto.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Bestiário para as crianças

Cegonha

A que me trouxe de longe
de muito, muito longe
chama-se Alcina.


Chimpanzé

O nosso irmão remoto
continua apaixonado
pelas árvores.


Carriça

Ave de biografia mínima.

domingo, 9 de dezembro de 2007

[A leve pureza das aves]

há um aroma triste

no íntimo das palavras

quando escrevo com os olhos.



nas palavras

inquiro a leve pureza das aves

e apenas invento

o rasto, o rosto da melancolia*.





* a melancolia é a forma mais luminosa da morte.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Casa


a minha casa fica dentro

do inverno

num inferno de palavras.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em breve, o cavalo

o perfume amarelo
das giestas
debruçado na estrada

rápida a manhã
invadida pelo automóvel
que enxota as árvores


também a navalha
do enxertador
indicia a primavera

em breve
o cavalo soltará tenras
crinas verdes


a real romã
esvaída de frio
na árvore despojada

chegam os pássaros
e grão a grão
sorvem-lhe o sorriso

(publicado na revista Canal, nº 4, Outubro de 1998)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Nenhuma infância, mesmo a dele


Ergue-se da manjedoura, entontecido pelo bafo a feno ruminado. Enfim, é a hora de andarilhar o seu caminho: nenhuma infância, mesmo a dele, terá tempo para ser eterna. Está frio, muito frio. Como poderá o menino sair assim, desagasalhado, do estábulo? A notícia corre ligeira. Vieram emissários de toda parte, uns de avião, outros de automóvel. Amáveis como o menino nunca vira ninguém, sorriso aberto, suaves gestos, palavras tépidas como o vinho. Todos quiseram ajudar. Tanta generosidade espanta, assusta o menino. E prometem-lhe roupa para a vida toda, vivesse ele a vida toda; leite, iogurtes, bolachas, Ben-u-ron, fraldas rigorosamente impermeáveis.

O que quereis em troca?

Nada. Quase nada, disseram.

Que apareças em público com roupa da nossa marca

a beber o nosso leite…

e se as febres te tolherem, diz que tomarás o nosso xarope.

Isso não farei. Quero vestir-me como os meninos do meu tempo; alimentar-me como os meninos do meu tempo, vencer a febre como

Impossível o teu desejo, alguém interrompe. O teu tempo perdeu-se, não existem meninos do teu tempo.

São homens?

Foram meninos, homens…

E depois?

Desapareceram, é a lei da vida.

O menino volta-se devagar, dirige-se à manjedoura. Acomoda-se na palha: adormece, sereno, embalado pelo bafo do tempo perdido.

À porta do estábulo, o desassossego agita a boa gente, agora indecisa a calcar estrume de dois milénios. Um deles, afoito, segreda algo ao ouvida da vaca.

Não!, reage o dócil animal.

Tu podias salvar humanidade da fome, da penúria!, implora o emissário afoito.

Sou muito velha para você me tratar por tu… Deixe-nos em paz!

Partiram. Uns de avião, outros de automóvel. Em redor do estábulo amontoam-se presentes. Roupas, fraldas impermeáveis, brinquedos de um tempo futuro. Dormirá mil anos, mil anos mais, o menino: emaranhado no sono, no sonho perpétuo de ser menino?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pena de gaio, vermelha

Há uma maneira muito simples de pescar trutas. No hipermercado, seguir até à peixaria: sobre o gelo, o indefeso cardume. Trutas, reparará, do mesmo tamanho. Brilham como se tivessem escamas de prata. Salmonada, truta arco-íris, recusa as águas frias de rio de montanha. Truta de viveiro, cevada ao ritmo célere da nossa sociedade. Não é dessa espécie, em franca expansão, que gostaria de falar. Trutas, para mim, só as de pinta vermelha: e essas jamais encontrará em imóvel cardume. Para iludir uma dúzia de palmeiras (as trutas medem-se aos palmos), é preciso bater muito rio, desde o cantar do pisco até ao sol projectar a nossa sombra na água limpa: tempo de trégua, de pousar a cana até ao declínio do dia. Grande empresa pôr em prática a receita que atrás sugeri. Se não é do mister, mais difícil se afigura a tarefa. Explico: a mãe de todas as coisas, a experiência, se convoca também para se obter sucedimento na antiga arte de iludir o peixe belíssimo, arguto. Arredio. Um simples gesto, passo desmedido, e a truta, em busca aflita de refúgio, some-se da vista. Vamos com calma. Tirando uns infelizes meninos sobredotados, conhece alguém que tenha nascido ensinado? Pode parecer cometimento arrojado, mas a pesca à linha é por vezesfrágil ofício poético. Somos só nós e o silêncio predador por dentro de Maio, na verdura tenra e húmida da manhã. O rio, o rio limpo, por cúmplice companhia. Lança-se a amostra, nº1, “pena de gaio”, vermelha, sem assustar a água, rente à outra margem: e logo o carreto a faz girar, fulgir, corrupio de encantamento: como surdisse do nada, de lugar nenhum, desfere o golpe ao intruso que lhe viola os domínios! A mais bela espécie da água doce, zelosa do seu espaço de caça, assim cativa a vida: atrás do brilho provocador, a fateixa! Faltam-nos onze palmeiras para compor a dúzia. Agora dê-se aconchego merecido à nossa truta: atapete-se, de ervas e folhas de hortelã, o cacifo de vime. Um cigarro, depois, longe do mundo e suas maleitas, enquanto se navega pela paisagem.
Da próxima vez (ficou devoto, pressinto), por certo, perderá menos amostras nos ramos dos salgueiros, nos musgos do fundo do leito. Da próxima vez, conhecerá alguns dos segredos do rio, o caminho para ludibriar as silvas, outro rigor no gesto ao lançar a “pena de gaio” sem ser visto pela presa. O provérbio é antigo, “não se pescam trutas a bragas enxutas”. Mas regressar a casa com o cacifo cheio de hortelã brava não deslustra: há o dia da poesia, há o dia do predador.

*
Truta moleira
(Para quatro pessoas)

Doze trutas de pinta vermelha, tamanho não superior a um palmo, de preferência cozinhadas no dia da captura.Limpas e enxutas, temperar com sal grosso. Envolver depois em farinha de milho. Frigir em azeite muito quente. Batata nova (pequena), cozida, acompanha as nossas trutas: chegam à mesa em travessa decorada com folhas de hortelã. A hortelã verde devolve um travo de rebeldia perdida. Evitar o limão.
Completar o prato com uma salada de agriões.
Bebida: branco, se possível, da Quinta de Tormes.
Tangerinas à sobremesa.
Por último, a entrada: fatias de presunto e broa de milho.
A melhor época para saborear truta do rio é entre Março e Maio.
No final do repasto, se é crente, pedir ao Senhor que continue a dar graças aos silenciosos pescadores da água doce.

(Publicado no livro Receitas dos Nossos Amigos e Outros, editado recentemente pela Coop. Árvore)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Provérbios quase esquecidos


em terra de cegos

o amor é táctil

*
um burro carregado de lírios

é um poema de Lorca.

*

quem tem telhados de vidro

adormece a contar estrelas

*

Deus fala direito por línguas mortas

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Bestiário para as crianças

Zebra

Conheço a história de uma zebra que, um dia, cansada da sua roupa às riscas: deitou-se no pântano. E de lá saiu, pouco depois, com uma cor só. A manada parou, a remoer o espanto – e expulsou-a.

Ao cair da noite, dizia a velha leoa aos filhotes: «Queria uma zebra para o nosso jantar… vejam só!, cacei este bicho desconhecido!»



Elefante

No tempo em que os animais falavam, um elefante disse aos companheiros: ertsevlis rolf amu res ed avatsog *. Os outros ergueram a tromba na direcção do céu, que é a forma destes animais exprimirem graficamente o espanto. Furioso, o chefe do grupo soltou um grito, imenso, parecia uma tempestade – a partir desse dia, barrito passou a língua oficial dos elefantes.

* Lê da direita para a esquerda, descobres um verso de uma língua morta.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Bestiário para as crianças

Urubu

Dos tempos de escola
só se lembra de uma vogal.



Urso

Escorre mel por esta palavra.


Veado

Pequena árvore andante.

sábado, 17 de novembro de 2007

A morte sobre a manhã




















Sobre a manhã, «ouviram um ladrar anormal dos cães». Descem ao quintal, acham refúgio num palheiro próximo. Minutos volvidos, os primeiros silvos de balas trespassam o frio de Dezembro na aldeia de Cambedo, perto de Chaves. O cerco. Ténues esperanças restam aos guerrilheiros antifranquistas. Homens acossados, conhecedores dos montes e de escusos atalhos, não renegam a luta. Resistem. Um dia, uma noite, até à tardinha do dia seguinte.
Os outros têm morteiros e bombas incendiárias, são muitos. Eles são apenas dois. O terceiro guerrilheiro foi abatido sobre a manhã – não quis, num gesto de dignidade, comprometer quem lhe havia dado guarida. Chamava-se Juan Salgado, gaiteiro na juventude, contrabandista. Guerrilheiro porque tinha arte de atirador (“onde punha os olhos metia a bala”) e, do outro lado da raia seca, esperava-o o cárcere. Ou, o mais provável, uma bala para lhe esfacelar a cabeça. Destino, afinal, reservado a quem afrontou o sanguinário caudilho.
Sobre a manhã, Juan fura o cerco, abre caminho com rajadas em forma de leque. O destino é fronteira, ali a escassos quilómetros. Dessa vez, porém, a montaria aos rojos envolve forças dos dois países. Na linha imaginária que divide nacionalidades, um cordão de carabineiros acolhe o compatriota desavindo com a palavra das armas. Ferido, volve ao refúgio de Cambedo, em busca dos camaradas. Um cabo da GNR trava-lhe a caminhada sôfrega, dolorida. “Foi morto pelas costas».
No estertor do lendário homem de guerrilha (“malfeitor”, “bandoleiro”, segundo as autoridades salazaristas), já os morteiros espalham o terror na aldeia raiana: ainda sobre a manhã, o povo, assustado, foge para a parte alta dão lugar. Ficam dois homens, dois homens apenas. Demétrio Garcia Alvarez (na foto) e Bernardino Garcia. A fenda numa parede, provocada pelo bombardeamento, permite-lhes entrar em casa amiga. Na adega, encurralados, rebatem os assaltantes. Adiam a morte.
Agora, manhã limpa, chega a trégua breve. As “forças públicas” iniciam a revista às casas de Manuel Bárcia e de Albertina Tiago. É nesta última que os guerrilheiros se escondem, atrás do velho lagar. Dois soldados da GNR são mortos, fica ferido um agente da Pide. Intensifica-se o tiroteio até aos primeiros assomos de escuridão. A noite, a noite ansiada por Demétrio e Garcia para tentarem a fuga. Em vão. As “forças públicas” incendeiam palheiros: o clarão das chamas depressa os demove da aventura.
Pela noite e sobre a manhã do dia seguinte falam ainda as armas. “Á tardinha”, lembra Aurora Gonçalves, Demétrio, sem munições. rende-se. Ou talvez fosse insuportável estar vivo ao lado do companheiro morto. Bernardino Garcia, ex-capitão do exército leal à Frente Popular, guardou a última bala para si. Preferiu a morte à tortura, à terrível angústia de ser forçado a contar segredos da guerrilha. A versão oficial é outra. Garcia “foi abatido pelas forças públicas”. E o cadáver exibido como trofeu de caça... que todos observem, toquem, o animal feroz. Na altura do massacre, Carlos Lopes tinha sete anos. Hoje ainda se lembra de Garcia, estendido, regelado, no cemitério de Cambedo. “Era um homem forte”. Mas o que guarda na memória, com nitidez, é a imagem das botas do guerrilheiro: “Um luxo, de cano alto, a bem dizer novas!»
Ary Pires era o barbeiro da guerrilha. “Cheguei a fazer a barba mais de uma dúzia deles”. No monte, duas vezes por semana: à quarta e ao domingo. “Pagavam-me bem”. Na madrugada do cerco, Ary é detido na fronteira, com contrabando, pelos guardas espanhóis. Trazem-no às autoridades portuguesas. Próximo do povoado, Ary ouve os primeiros tiros. Depressa adivinha a tragédia. “Vinha o dia a romper”, por entre os arbustos vislumbra Juan já em fuga, na direcção da fronteira. “Foi meter-se na boca do lobo, e eu nada podia fazer”. Vê pela última vez o guerrilheiro, agora já ferido, no regresso a Cambedo: “Andava uns metros, voltava-se de repente e despejava uma rajada”. Ary aponta como o dedo para o fundo do pinhal, “mataram-no ali”. Pelas costas? “Isso não sei. A GNR o ali o Juan, tenho a certeza». Antes do assalto final, os guerrilheiros «andavam tranquilos da vida: trabalhavam para os vizinhos, comiam e bebiam nas adegas do povo. Mas a vida é assim”.
O cerco a Cambedo, no dia 20 de Dezembro de 1946, marca o fim da guerrilha antifranquista, com base de apoio na raia portuguesa. Um erro político dos maquis conjugado com a acção da Pide deram o golpe final nos rebeldes. Em Setembro daquele ano, o grupo de Juan Salgado ajusta contas com o cacique Sousa Pinto, da aldeia de Negrões, Montalegre. Este acto de retaliação causa três mortes. Sousa Pinto havia denunciado um refugiado, que hospedou em sua casa:. devolvido às autoridades espanholas, foi fuzilado mal transpôs a fronteira.
Demétrio Garcia Alvarez, perante os juízes do Tribunal Militar do Porto, reconhece o erro do assalto em Negrões, atribuído ao grupo de Juan. O acto, no entanto, carecia de autorização da Federação de Guerrilhas galegas. Após os acontecimentos de Negrões, as autoridades salazaristas reforçam a campanha contra os “bandoleiros armados”. Era, pois, altura de alarmar as populações do “perigo” que corriam ao apoiar essa gente. Para reforçar a ideia de terror, a Pide e agentes espanhóis encenam um assalto à carreira Braga-Chaves, no último dia de Outubro de 1946. Não houve mortes, mas os passageiros vêem-se desapossados dos seus bens. No dia seguinte, os jornais falam de mais um atentado da “matilha do Juan”.
Estava criado o ambiente para o golpe na aldeia do Cambedo, nas vésperas do Natal. Desmantelada a guerrilha, dezenas de portugueses são condenados pelo crime de serem solidários. As marcas da brutalidade do assalto ainda são visíveis na aldeia raiana. Uma das casas derrubadas a tiro de morteiro continua em ruínas: para que ninguém esqueça a barbárie fascista. Ao lado, sobre uma varanda de madeira, um solitário cravo vermelho debruça-se na ruína. Imagem de liberdade, numa manhã de Dezembro – distante, tão distante do «ladrar anormal dos cães».

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Bestiário para as crianças

Estorninho



Atravessa o Outono
veloz e luzidio
como um fruto ferido de mágoa

em bando, sempre em bando
o negro estorninho.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O rapaz do lírio

Senta-se na sombra dos choupos. As raparigas diluem Agosto, ardente, no rio. O rapaz sobe à coroa do amieiro. Tudo cessa para o ver, destemido, a declinar a cabeça contra o peito, como ave em busca do sono, a estender os braços, retesados, cegos: a todo o instante, o golpe preciso, exacto, na limpidez da água. O homem do saco de cabedal leva o olhar ao encontro do mergulhador. Indeciso, agora indeciso, no ramo mais alto, adia o gesto, o arrojo, a glória efémera. Uma brisa suave fez bulir as folhas, desinquieta o leve voo das libelinhas, penteia a verdura dos milheirais em redor. O rapaz recolhe devagar os braços, levanta a cabeça. Desce. Sem olhar o rio, desce. O seu silêncio é uma arma branca, gume afiado, degola folhas, os ramos tenros do amieiro.
As raparigas voltam à água, ao riso, desinteressadas da secreta amargura do rapaz. Do mergulhador enamorado, que desaparece por entre as canas do milho, a roupa debaixo do braço; momentos depois regressa vestido. Parte. Nenhuma, e nenhuma rapariga o segue pelos olhos. O homem abre o livro. Adormece, pouco depois, na sombra húmida dos choupos.



O homem do saco de cabedal assiste aos preparativos da festa, no largo. Em Agosto, no mais remoto lugarejo há sempre bocas de altifalantes na copa de árvore inatingível. Ou, se a igreja tiver torre, daí desponta a música. Veio a noite e a noite trouxe a dança. O mergulhador enamorado aproxima-se, traz um lírio na mão, um sorriso nos lábios. Da porta do café, o homem perscruta-lhe o movimento – o passo tímido, coração inquieto. A dança acaba, outra dança se inicia. E o rapaz caminha, caminha por dentro da alegria dos outros. Que paixão esconde atrás do lírio? Detém-se. Olha ao redor, como se fosse um estranho. O homem do saco de cabedal entra no barulho do café, ilude o labirinto de homens que amarfanha o balcão, pede aguardente: um cálice de aguardente, por favor. A mulher detém-se. O seu espanto parece eterno, o homem repete, aguardente, por favor. E estende a nota, não o fossem pensar um louco sem dinheiro. Enche o cálice,
Café?
Obrigado,a aguardente basta.
Enquanto recolhe o troco, diz: Agosto é o primeiro mês do Inverno. Boa noite. Abandona o balcão e o olhar violento dos homens.
De novo no largo, agora mais amplo, despovoado. Olha o relógio, passa da meia-noite, a temível fronteira que afugenta os rurais. Os do café começam a sair, devagar a noite passaja a dignidade da acalmia.
O homem irresoluto, no meio do largo. Regressa ao café, a televisão adormecida; a mulher varre saquetas de açúcar vazias, pontas de cigarro, tampas de refrigerantes que, na curta viagem, riscam o silêncio. A mulher suspende o gesto, encosta a vassoura ao peito. O meu avô também dizia que o Inverno rompe no primeiro dia de Agosto. A sabedoria dos velhos, pensava, só a eles pertencia. O homem do saco de cabedal olha-a (de repente se fez bonita, como a mulher de uma canção da sua juventude). Ela pousa a vassoura, enche dois cálices de aguardente. Bebem de um trago só.
Que secreta paixão esconde o rapaz atrás do lírio?
O homem ingressa na noite, atravessa o largo, depois uma ruela estreita, calceta irregular, sob um arco de latidos. No desfecho da aldeia, no ponto mais escuro da noite, acende um cigarro.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Água do mar

Leva-me a Busteliberne?
O homem do carro de praça espanta-se. Vistoria, em silêncio, o imprevisto cliente. Barba a monte, um pouco abandonado no vestir, o saco. Que ocultará o vadio no saco? Encostado ao automóvel, na sombra do plátano, hesita. O passageiro imprevisto ilude a impaciência. Abre o saco, demora a achar o tabaco, retira e a seguir devolve o conteúdo: livros, um caderno de capa dura, um lápis, Viarco nº 2, afiado... Então, Busteliberne!, diz, bem alto, para o colega (dormita no outro carro de praça) ouvir. Abre a porta, ocupa o lugar. O homem do saco de cabedal circunda o automóvel, senta-se ao lado do motorista.
A estrada civilizada, pouco demorou, fica para trás. Agora é de terra batida, rasgões evidentes talhados pela cegueira das chuvas. Lenta, lenta e penosa a marcha no coração da serra. Das bermas, uma multidão de giestas curva-se em vénia florida. Quatro ou cinco quilómetros galgados, nem uma palavra. Aqui e além, o motorista tosse, como se afinasse a garganta para o arremesso da pergunta. O homem do saco olha em frente, às vezes vira o rosto e segue a imagem pela janela do seu lado, como caçador, arma apontada, a riscar trajectória de perdiz. Ele sabe, a pergunta surgirá antes do olhar atingir a aldeia,
Se quiser, pode fumar.
Ei-lo a arrotear o silêncio. O homem do saco de cabedal, por certo, vai agradecer,
Obrigado.
Caiu na cilada. A pergunta vem a seguir, um humilde vai desculpar-me no início. Vai desculpar-me o atrevimento: alguma vez esteve em Busteliberne? O passageiro olha-o com um sorriso. Não, nunca estive. Do saco retira o tabaco; o outro desce, enquanto fala, é uma aldeia quase morta, o vidro da janela. Só a Deus falta a companhia de dois ou três velhos... e declina de vez! O homem do saco diz, o topónimo é bonito. Como? Antes de entrar na vila, vi o nome da aldeia numa placa. E subitamente Busteliberne é a minha terra. Como se, há muitos anos, eu tivesse partido: sem virar o rosto, no olhar derradeiro. Não o entendo, diz o motorista. Passagem bíblica, meu amigo.

Ainda estamos longe?
O homem do carro de praça emudece. Mesmo ao lado tem um desconhecido, barba a monte, desleixado no vestir, o saco, que esconde o saco além dos livros? Na aldeia havia três ou quatro velhos, até os distinguia pelo nome, mas já morreram, e se vivos fossem demasiado gastos seriam para o ajudar a deter o gandulo… a estrada, apertada, a estrada não permite brusca inversão de marcha,
A minha única arma é um lápis afiado.
Vai desculpar-me... é que o senhor parece…
Quer um cigarro dos meus?
A aldeia, povo breve, em frente dos dois homens. Pare. Por favor, pare aqui. Quero regressar pelos meus próprios pés! Quanto lhe devo?
Paga. Estende mão amistosa ao motorista.







Crepita a água pelos regos. Água, muita água, como se fosse o perfeito idioma do abandono. O homem suspende o gesto, relê: perfeito idioma. Rasura o que acaba de ler. Escreve, como se fosse voz cristalina do abandono. Pela escrita suaviza o infortúnio do mundo, pensa o homem do saco. E quem sou eu, silencioso cronista, para lhe alarmar o sonho? Ele fecha o caderno de capa dura, acomoda-o no saco de cabedal, volta-se na direcção da serra, à procura do carro de aluguer. Nada vê, nem o automóvel, nem a nuvem de poeira que por certo levantaria. Um absoluto silêncio apenas, que a voz derradeira da água não apaga – nunca saberá diluir.
O motorista aproxima-se. Desgastado. Como se tivesse esquecido a arte de andarilho por caminhos velhos. Senhor, peço desculpa. Não o podia deixar sozinho: quem o levaria à vila? Não, não pense mal de mim, a viagem de regresso é por minha conta. O homem do saco de cabedal diz,
Já não há lobos na serra.
Nem almas nesta aldeia, senhor. O último habitante morreu no Inverno do ano que passou, foi encontrado por caçadores, na soleira da porta, hirto pela geada.
Afinal, a Deus nada falta.
Sim, não contei a verdade toda… para o apartar do fim do mundo.
Como se chamava esse homem que o frio soube cingir?
Era uma mulher, senhor. Chamava-se Ludovina. A todos os que por aqui passassem, ela fazia um pedido: se um dia voltassem, lhe trouxessem água do mar. Um garrafão de água do mar!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Os homens de talabarte


















No tempo dos lírios, eles sobem aos montes, levam bornal, em bandoleira, cheio de laranjas e hortelã. Quando o peixe se afoita na correnteza das águas, descem às terras aluviais rente ao rio. Um lugar de gente feliz, disseram: caminha por veredas antigas, limpas pelo melhor buril que é o uso. No defeso de passear pelos montes e prender giesta branca no talabarte, e não sendo época da desova dos barbos, é Inverno: os homens andam em redor do povo. Durante os rigores do estio porfiam a mesma navegação sob a alva. Repousam, à tarde, debaixo das figueiras. E quem sabe ler, lê como se falasse sozinho. Os que não ajuntam o rebanho das letras ouvem, ao lado das crianças, enternecidos, o mistério dos livros profanos. Terminada a leitura, já o sol se afigura manso, passam pela fonte. Bebem, as mãos em concha alaga-os de frescura. No lugar onde os homens andam a pé, o último sacerdote sublinhou fiel atormentado num incunábulo, interdito a leigos, e desatou a correr para o coração dos montes. Uma picada de víbora, não era tempo de açucenas, trava-lhe a jornada que parecia sem fim. De boa mente, os homens espremeram meia laranja azeda na zona da mordedura, por via da ruindade não alastrar à alma, e deram sepultura ao corpo. Durante a noite, emparedam as portas do templo com tijolo burro – a grande e a lateral, mais económica de uma só folha grossa de carvalho francês. E abjuram o conserto do vidro que o derradeiro eclesiástico estilhaçara num imoderado arremesso de pedras às andorinhas. Aferiam no santo beiral o sítio justo para o ninho, mas a tempestade de pedras, silvavam como cobra sitiada, irrompeu desmedida: as longínquas aves alaram. No ano seguinte, porém, depressa a fresta no vitral foi convite a habitar o sagrado.
Por entre as neblinas primeiras de Outono, despediram-se de novo da igreja, num voo silencioso e comovido. Disseram, “as andorinhas quando voam rente ao céu, e fazem-no nos dias luminosos, incorporam as almas”. Rompeu a Primavera na frágil brancura das cerejeiras, o bando também e havia crescido: barro e mais lama desaguam na solidão do templo. Laborioso movimento, leve e expedito, maravilhava os homens: viam agora as andorinhas como se fossem a alma alada e veloz de antepassados. Almas enamoradas, acasalavam para subtrair ao limbo outras almas à deriva, longe da luz, longe do mundo dos vivos. A partir de certa altura, um dia por semana, a caminhada perecia no adro. Houve quem exigisse a reabertura das portas, no estado em que se achava a igreja impiedade seria chamar-lhe Casa de Deus. Que é alvura, que é a Luz. E esse argumento viaja na carta, chega à mão desapaixonada do secretário do bispo, no distante paço episcopal. Os portadores da epístola, dois homens maduros, gastaram sete dias, em passo ledo e harmonioso, até topar o destino. E três dias aguardaram, a água e silêncio, sem dormir, pela graça do prelado, que pressentiam feliz. Recebeu-os sentado, escusou estender a mão, não quis levantar os olhos; escrevia numa folha timbrada, resguarda o escrito no envelope onde os homens vêem tombar uma roxa lágrima de lacre – e logo o anel lhe dá forma circular, marca pessoal.
Quando o secretário o avisou da partida dos romeiros, levantou-se e devagar, engenho de bispo a conferir solenidade à marcha, abeira-se da janela. Ainda vê, no fundo da rua, os talabartes floridos. Espanta-se! A elegância, ritmo, a leveza dos caminhantes… “Povo selvagem”, comenta para si, no momento em que os perde da vista.

A um dos profanos leitores estivais cabe a missão de revelar a resposta. Estava escrito o seguinte na folha timbrada: “Quem me ama, guardará as minhas palavras”. Nada mais o bispo grafou além da breve frase alheia, por isso cativa pelas aspas. De que livro havia emigrado o pequeno bando de vocábulos? Dos evangelhos, talvez, mas seria empresa desprezível, e deveras imóvel, passar a pente ralo os evangelhos à cata da palavra e do seu contexto. E se a citação fora colhida em livro apócrifo? Os livros sagrados escassíssimo interesse atiçam no lugar onde as pessoas andam a pé. A dúvida terá o mesmo número de devotos. Expeditos, acham resposta para tudo. Respostas quase sempre inverosímeis mas o certo é que a dúvida foge como animal bravio. O leitor da missiva, ele próprio, como se fosse experiente arboricultor da língua, desrama a mensagem. “O bispo diz que a palavra do Senhor está na igreja. É preciso libertá-la, dar-lhe de beber a luz: pô-la como um selo no coração”.
Um a um, com desvelo de artefacto da dinastia Ming, apearam o tijolo burro que sequestrava o verbo divino. Quando a luz diurna, morna mão macia, afagou de novo as portas: a madeira retraiu-se da carícia e arremessa um estalido, a lembrar gelo pisado sobre a manhã de Janeiro, e se levanta nuvem de pó, e ouve-se a fechadura a cair estrepitosa, desamparada, no lajedo da soleira, e pouco depois o tilintar de pregos e outras esquírolas de metal. Vagarosa, a porta grande, pó, finíssimo pó cor de chocolate, suja a claridade. Melancolia corrosiva, disseram, é a ausência de luz. Explicar as coisas pela metáfora parece ser o melhor caminho na terra onde as pessoas andam a pé. Juntos com a luz limpa, os homens reentram no templo abandonado: a brusca visão dos santos, alvejados pela claridade, assombra-os! Para muitos era a primeira visita à Igreja, e de igual modo esses, falhos da palavra de Deus, mostram sentida inquietação. Os santos, disseram, perdem o rosto no instante em que renegam o martírio. Esta observação, como se tivera fogo, impele a marcha – depressa o adro e a igreja quedam vazios de gente.
Os homens no tempo da desova dos barbos não usavam os talabartes. Quando voltaram do rio, trouxeram um seixo afeiçoado e uma braçada de perrexil. E deram o seixo a lamber a vaca prenha, depois o enterraram no vergel mais árido do lugar: assim haverá água na fonte e nos campos, têm as chuvas os seus tempos plausíveis. A salsa brava mergulha na água com um fio de azeite cru, numa caldeira de cobre, e havia de ferver três dias e três noites. Nas quatro noites seguintes ficaria em repouso, coberta por manta de burel. A partir do sétimo dia, os mais velhos do lugar onde as pessoas andam a pé, se a fadiga lhes tolhia a marcha, beberiam uma concha desse chá e o enfado abalava. Os rios, disseram, perpétuos viageiros desprezam a memória porque imunizam o ímpeto da juvenilidade. E foi desprovidos de talabartes que os homens volveram à igreja, como se desejassem confirmar o assombro. As andorinhas estavam também de volta aos ninhos, havia-os no tecto, colados aos frescos bíblicos, havia-os nas paredes e no altar. Aí, no altar, surgiam apostos ao rosto dos santos, humanizados pela vida que se gerava nas suas cabeças. As imagens viveram paraíso onde as almas repousam e se multiplicam. E o S. Manuel! Só ao mártir S. Manuel consentiram o rosto, o ninho acomodava-se entre as flechas que trespassam o franciscano morto em Damasco. Para este fenómeno a explicação não surge com a simplicidade habitual no lugar onde as pessoas andam a pé. Ficam inquietos os homens, abandonam apressados a igreja e o frenesi das andorinhas a restaurar os abrigos. Pela tarde, encetam a caminhada: trazem os talabartes, embora seja tempo de defeso das giestas floridas. Como se temessem investida externa, o tijolo burro, desta vez na companhia fiel do cimento, empareda as portas do templo. E assim a penumbra, em silêncio, repasta o martírio do padroeiro dos viandantes da cristandade.
Posto o último tijolo, os homens beberam o chá de perrexil na concha marinha. Antes da andança pelas colinas e os montes, chega um homem, muito gasto da andadura. Ele traz uma carta, e ele próprio, depois de beber uma pouca de água, a lê no adro, sem olhar o auditório, como se falasse sozinho: “Esta igreja só reabrirá ao culto se as andorinhas que a habitam forem descendentes das andorinhas que emudeceram em obediência à palavra de S. Francisco”. Quem ordena tamanha crueldade? Indagam os homens de talabarte. Mas pregador gasto pela digressão, homem do longe, por modo de abreviar a bagagem, só trouxera mesmo aquelas palavras.
Dobra devagar a carta, deixa um gesto desapaixonado na despedida.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Bestiário para as crianças




O rato roeu o o e o m da romã,
e ficou espantado! Um pequeno bicho
nasceu diante dos seus pequeninos olhos
a saltar, a saltitar, a saltarilhar,
a saltarinhar… até descobrir o lago
dos nenúfares

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Pavese no Café Ceuta

Um copo de cerveja. O caderno aberto, onde escassas palavras encontram resguardo. Breves palavras. Nas tílias da Praça Filipa de Lencastre, uns passos abaixo, a verdura enlaça os ramos. É Maio, o fulgor do mês de Maio. Há muito tempo, o homem do saco de cabedal confiou-me um segredo: a rebentação da folha dessas apaziguadoras árvores açulava a angústia. Desconforto antigo. Na aldeia do homem do saco não havia tílias. As árvores, no campo, ofereciam fruto ou madeira de excelência. Qualidades arredias da tília ornamental. Desaba sombra na terra: sombra molhada e generosa, como todas, ou quase todas as árvores de crescimento sôfrego. Fruto, fruto, se o dá, nunca ninguém lhe meteu o dente, e a arte da carpintaria despreza-lhe a madeira: espevita a gula do caruncho, cede indefesa à melancolia da humidade. Ele viu as tílias pela primeira vez em terra distante. Era jovem ainda, tresmalhado dos montes: o porte altivo da árvore surpreendeu-o, o garbo dos ramos também. E só mais tarde lhe pôde sentir, sem desassossego, o aroma ameno a adocicar a Primavera. A folhagem da tília, invisível ferro caldo, marca um tempo da juventude: quando o cocuruto atinge verdura plena, irrompe a época dos exames – tempo de alegria perturbada.
Da mesa do café, o homem não vislumbra as árvores da Praça Filipa de Lencastre. As mesmas palavras, no caderno aberto, acocoradas na caligrafia mínima, canhestra: rebanho transido a pressagiar odores do lobo? O homem espera alguém que eu desconheço, personagem de um sonho – ou de livro? –, talvez um amigo esmaecido na memória. É esse o vício. O seu vício absurdo quando recolhe à cidade. Senta-se no Ceuta, bebe cerveja fria, o caderno aberto no tampo da mesa. Antes da noite, desce à Filipa de Lencastre, observa as árvores, a grandeza silenciosa das tílias que lhe aferraram a juventude. E parte depois, numa das camionetas da Rodoviária Nacional, rumo a lugar nenhum. Hoje, não. Declina a tarde, o homem adivinha algo de estranho. Rude lembrança, não muito antiga, devolve-o ao início de outro Maio, a trágica noite na Avenida dos Aliados: povo escorraçado à força de bastão e balas. A lembrança, essa memória com sangue, incomoda-o, tanto que pede cerveja e retoma a escrita, como se a escrita fosse gesto animal de esgravatar no papel para encobrir impurezas. «…Podes amar uma cidade fora da geografia da tua infância? Leve sopro derriba os amores adoptivos, carece de afecto primordial a sua frágil argamassa. És desconhecido, serás sempre um estranho. Tu não sabes amar a cidade. A cidade, de igual modo, te abandona. E aqui foste feliz, guardas ainda fragmentos dessa transitória e irrepetível felicidade. Do Largo dos Grilos, madrugada de Junho, vias esquiva luz beber o rio; o arraial florescia, e tu escorrias por uma escadaria quase infinita. À tua frente esvoaça a fina saia longa da mulher que amaste, amas. Ainda amas. Pela mesma escadaria, soubeste depois, mulheres de um tempo brutal, em sentido inverso, irrompiam da água com molhos de carqueja à cabeça. Feixes desmedidos, as mulheres perdiam o rosto, abdicavam da humanidade: eram (a imagem não te pertence) árvores da floresta andarilha. Nessa madrugada de juventude, nada sabias do tormento das carquejeiras, mulheres no limiar da humildade. Era a festa, o povo todo nas ruas… Como é possível negar amor a uma cidade que enfeita a noite com ervas de cheiro? Um vulto magro, destoante no vestir, aproxima-se da mesa. O homem do saco de cabedal suspende a escrita: olha-o,
Eu sabia!
O desconhecido pede água mineral, num tom de peregrino enfraquecido. Observa o caderno aberto,
Verso longo… Curioso, também o julgava mais velho, rente à morte!
Olham-se, o peregrino apercebe-se do equívoco,
Peço desculpa…
Faz um gesto ao empregado. Paga a bebida, vai abandonar a mesa. O homem do saco de cabedal, toque suave no ombro, impede-o, Li todos os seus livros, os romances, a poesia, o diário, um imenso fastio de tudo. Um gesto. Não escreverei mais: última fala do Ofício de Viver.
O outro homem diz. Li todos os livros do poeta que aqui julgava encontrar, O Peso da Sombra, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro… palavras luminosas, amena melodia pastoril por dentro. Por isso, viajei de lugar nenhum, do silêncio mais longínquo, até esta cidade.
Por que arte chegou aos livros em lugar nenhum? Interrompe o homem do saco de cabedal (acena ao empregado).
Os livros, primeiras edições, chegavam ao silêncio mais longínquo, sem dedicatória, na companhia de um cartão manuscrito. Caligrafia de outro tempo, elegante, de quem deveras ama a escrita. O autor desses cartões é, com certeza, um arquitecto: quem povoa a folha em branco, descobri ao ler esses bilhetes, desenha a casa das palavras… Boa cerveja!
O homem do saco de cabedal fecha o caderno, não vá o viajante de lugar nenhum ver na caligrafia um bairro de subúrbio, emaranhado e triste. Sujo, imundo e violento,
Na temperatura certa, toda a cerveja passa por boa… (Guarda o caderno no saco). O poeta que procura não frequenta este café. Vive cerce ao rumor do mar, rosto precário disperso nas paredes da moradia. Rente, rente à morte. Rente à morte, sim.
Não é o poeta que procuro,
diz o desconhecido.
Eu sei. O outro, o que constrói a casa das palavras, decrua sonhos no Café Progresso, bem perto daqui.
Leve-me lá, por favor!
Será uma honra. Antes de partirmos, permita-me uma pergunta, uma única pergunta: a mulher da colina, onde se derramou o sangue e largámos o nome e arma, ainda espera por nós?
Basta de palavras.
O homem de nenhum lugar levanta-se, perturbado. Abandona o café – atravessa a rua, passo destemido contra a furiosa impaciência dos automóveis.
Retira o caderno do saco, abre-o. Retoma a escrita,
«.Tu não gostas das cidades

domingo, 28 de outubro de 2007

veados floridos

que fazer de tantas palavras
rolam na cabeça como veados feridos
a zagalote: em busca da morte
à procura da morte no local mais obscuro
do arvoredo

sábado, 27 de outubro de 2007

Bestiário para as crianças

Sereia



Uma mulher sentou-se no rochedo, pés imersos no mar. E assim ficou muito, muito tempo. A todos os barcos que por ali passavam, ela perguntava aos marinheiros se tinham visto o seu amado. «Como é o teu amado?», queriam saber os marinheiros.
«É belo como um lince, olhos da cor do sargaço, pele macia como a espuma do mar…» Quando a mulher emudecia, já os barcos iam longe, engolidos pela névoa.
Depois de muita espera, exausta e faminta, a mulher quis sair do rochedo. E foi então que viu os seus pés, que entretanto se uniram, transformados numa grande barbatana, escamas a alastrar nas pernas! Estendeu os braços, mergulhou com um sorriso que nem o frio salgado da água conseguiu dissolver.
Não sei se a mulher descobriu o amado. Mas ainda hoje, muitos anos depois, quando cruzam aquele rochedo, os velhos marinheiros contam que um dia ali viram uma mulher muito bonita, «olhos da cor do sargaço».

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Aldeia que nunca existiu

Às vezes, poiso o cavalete na memória e pinto, lentamente, paisagens que andarilhei na infância. A arte, a minha arte, contudo, não é essa: eu trabalho a madeira. Entalho santos, recomponho as tábuas de altares torturados por secreta humidade que prece alguma jamais enxugaria. Mãos mundanas, as minhas mãos, se desgastam no afago do sagrado. Às vezes, poiso o cavalete na memória: procuro geografia remota. Tontice, eu sei. Mas enquanto pinto, recupero um tempo perdido. E, então, vou pelos campos floridos com o José, que arriba à minha aldeia no Verão. Ensino-lhe o nome das árvores e outros segredos que enchem de espanto – ou, talvez, de medo – os meninos da cidade. Certa vez descobrimos, num loureiro, o ninho de melro. Averiguei-o, delicado, com a ponta dos dedos: disse, tem três pedrinhas. Ele espantou-se. Sim, pedrinhas. Se dissesse ovos, as formigas escutavam e depressa ocupariam o segredo. E filhotes de melro, de todas as aves, enquanto privados da liberdade do voo, são sapinhos! Assim, as cobras, que sempre nos estão a ouvir, desinteressam-se da palavra. Numa das jornadas por montes e vales, no mês de Agosto, falei ao José dos perigos da mordedura de licranço: sem cura, sem descanso. Nós, os da aldeia, damos valor à palavra, à sabedoria dos velhos. Sendo assim, licranço que emergisse na claridade via de súbito a irregular fuga truncada pelo fio da sachola – e se sachola não houvesse, pedra sempre se acha a jeito para esfacelar cabeça de réptil. No fim de Agosto, quando as latadas derramam aroma doce de uvas maduras, o meu amigo partia. Eu acompanhava-o até ao desfecho da aldeia, e ele nunca, nunca olhava para trás. Despedia-se, sem se virar para a aldeia num último olhar. Os anos foram escorrendo, guardámos as fisgas, esquecemos o carrinho de rolamentos, começámos a duvidar da sabedoria dos velhos, pelo menos no capítulo da eterna ruindade do licranço. E houve um Verão que o José não apareceu. Nunca mais regressou à aldeia. Anos volvidos, escreveu-me um postal como quem salda a última parte de uma dívida de gratidão. No postal, ele falava-me com entusiasmo da memória de uma aldeia que nunca existiu – nem na terra, nem no fundo do mar, nem para lá das nuvens. Dessa vez, fui eu a ficar deveras espantado com as palavras de gente da cidade. Mas perdi pouco tempo a remoer a memória da aldeia que não existe em parte alguma. Dias volvidos, parti para África, fui à guerra, e o medo, o medo da morte, enfim, humedecia quase todos os meus pensamentos. Lembro-me de ter levado o postal comigo, e a intenção de responder ao meu amigo quando aportasse em terra longínqua e desconhecida. Acabei por nada escrever. Houve então um tempo longo, muito longo, de silêncio, sem notícias do meu amigo. Só quando poisava o cavalete na memória ele aparecia a partilhar o espanto juvenil. Há dias, porém, ao ler o jornal, reencontrei-o subitamente! “Memória de aldeia que nunca existiu” era o título da notícia e o nome da exposição de pintura. Anotei o local, preparei a viagem até ao Porto. A inauguração já havido decorrido: observo devagar, quase sozinho na galeria, o trabalho do meu amigo pintor. E diluo a dúvida que trago desde as distantes férias de Agosto: descubro a razão por que o José, na despedida, nunca voltava o rosto, num derradeiro olhar, na direcção da aldeia: ele levava-a dentro do coração; desse modo, como poderia ter saudades de algo maravilhoso que trazia no seu íntimo? Entro na aldeia-que-nunca-existiu, habitada pela memória do José e das suas personagens: a mulher azul, suave melancolia nos olhos, sustém no colo um galo colorido como se fosse um menino, o filho que um dia partiu. Ergo um pouco o olhar, vejo o homem da bicicleta – militante clandestino, figura saída do poema de Herberto Hélder? –, pedala, o homem pedala, senhor da sua melancolia, pelo domínio dos anjos e outros alados seres sagrados. De regresso à terra chã, observo o comboio a vapor, a entrar no desconhecido. Outro homem em movimento, corre, forquilha apontada: como uma lança ou tridente de gladiador. Que medo acirra esta criatura? Há ainda o pastor, apascenta ovelhas e tristeza, um velho sentado no cadeirão, em plena paisagem: esteve ali a vida toda, à espera do homem que caminha, do homem que regressa à aldeia-que-nunca-existiu. O meu amigo não está na galeria, e eu não pergunto por ele: continua, porfia, como caçador a caça, a aldeia. Uma terra imaginária, tolhida pela nostalgia assim como ficava a minha aldeia depois de Agosto. Digo-vos agora o meu nome: eu chamo-me Gualdim. Não volto a poisar a cavalete na memória. Na minha arte, já o disse, entalho figuras religiosas, componho a madeira de altares feridos pela humidade. Nem o sagrada é capaz de iludir a velhice: mãos mundanas, as minhas, se desgastam devagar. Anotei o endereço da galeria. Quando chegar a casa, prometo, vou responder ao postal que o José me enviou há muitos, muitos anos. Talvez ele até já nem se lembre de mim. Dir-lhe-ei, és o filho inventado da mulher azul, uma personagem de Tonino Guerra, retirada do Livro das Igrejas Abandonadas.

(Para José Emídio, guardador de imaginários)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Redonda doçura

Outras palavras, remotas talvez, povoam o silêncio da brévia. Definha a luz última do dia: os pardais convergem na direcção da tangerineira (quantas árvores habitam uma palavra só?), mergulham na densa ramagem – adormecem embalados na redonda doçura dos frutos.

(in Brévia, hidra editores)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Bestiário para as crianças

Joaninha



Diz-me, joaninha: o teu pai
ainda mora em Lisboa?
Não fiques triste,
às vezes por uma rima boa
vão de viagem
os nossos amigos
a comer sardinha e broa.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Bestiário para as crianças

Lobo

Em nome do medo te deram caça
e os pastores com mil
histórias terríveis te apedrejaram

já não desces ao povoado
pela fome branca da neve
nem o rebanho afoito sobe a montanha
a catar a frescura do Maio.

Peixe-espada


Nobre que seguia
nas caravelas portugueses
e caiu ao mar.

sábado, 20 de outubro de 2007

Primeiras chuvas

O homem atravessa as primeiras chuvas, o silvo da ventania. Despojado. Sente as mãos entorpecidas, inúteis, como as mãos de pescador da água doce submerso nas chuvas de Março. Do interior das botas debanda um ruído de água impura. O rapaz e a mulher (ainda jovem), emudecido colóquio de melancolia, guardam o morto. A porta da capela quase fechada, só uma fresta alicia claridade breve e encurrala o frio. Em redor do esquife, cerrado, apto a navegar por dentro da terra, nem flores nem odor a círio aceso. O rapaz, apenas a mulher e o rapaz. Furaram a noite ali, anteviram, no gume do vento, o dia turvo e despovoado. Chuva, depois a chuva, agreste. Chuva de Dezembro: condena os vivos, condena os vivos até aos ossos.
Fossem outras as circunstâncias, beberiam aguardente nova sobre o jejum natural, sem mastigo apressado de pão milho por via de desembravecer a labareda interior. Ou vinho, desse vinho azedado que a bondade dos senhores concedia pela alva aos moços de servir. Fossem outras as circunstâncias, ali não: por resguardo da alma prisioneira do finado. Libar vinho no templo (figuração branca do sangue de Cristo) é graça apenas dos artífices do divino. Peleja corajosa, sem dúvida, a da mulher e a do rapaz contra o frio – anuir ao desconforto seria agora apoucar a mágoa, tingir o luto.
O homem entra no templo. A mesma folga na porta. A bainha de luz e frio acha a parede lateral e por aí definha, fronteira oblíqua: separa quem entra da essa, da santidade que a penumbra invalida. Num passo pantanoso, pisa o traço de claridade. A mulher levanta o rosto: olhos de submissa chama alumiam o viandante, desde muito longe – desde a infância, talvez. Comove-se. Dá um passo em frente, estende o braço, mão aberta, mas o homem sela a saudação com um beijo.
Só eu guardo os mortos abandonados,
diz a mulher.
O homem olha o rapaz, persevera o frio e o olhar cabisbaixos,
É o filho,
diz a mulher.
Comove-se. No rosto, aparentemente jovem, esquiam duas lágrimas velozes [Cessa aqui o ofício do narrador que agora me parece, além de infeliz nas imagens, desapiedado]. Comovo-me, devastado pelo silêncio do rapaz. Lembro (num sussurro que a penumbra instiga) à mulher,
As chuvas do Inverno flagelam os vivos.
Num tom ciciado, que a presença do rapaz reivindica, ela anuncia,
Beber muito cansa a alma. Deforma o corpo.
A que horas é o funeral,
pergunto.
Depois do outro enterro,
diz a mulher.
Estendo um cigarro à tristeza do moço, ofereço outro, já aceso, à mulher. Emudecidos, fumamos emudecidos em redor do morto: abrigado da luz da manhã, o morto, como se quisesse dormir até mais tarde. Talvez o fumo o aborreça. O rapaz transpõe a fronteira: joga a beata na chuva pela fresta breve da porta. Pressente a manhã desabitada,
Está frio,
murmura.
Eu e a mulher deixamos cair as pontas de cigarro na humidade suja dos ladrilhos, rente ao esquife. Quando éramos crianças, a capela tinha soalho. Pouco antes das novenas de Maio, mês de Maria, a zeladora do templo passava um pano molhado e sabão amarelo nas tábuas de castanho. Depois, sempre de joelhos, esfregava ao soalho com escova de piaçaba. Adivinhávamos o árduo desvelo pelo cheiro do sabão amarelo – a zeladora, viúva temporã, trancava a porta a olhares impúdicos.
Sem flores a bordejar o esquife, a morte parece mais aceitável.
Esquife… esquife,
silva o rapaz, a devassar a minha palavra.
É o barco do teu pai,
diz a mulher.
Não sou filho de toupeira…
Pobre diálogo e pobre, me parece, continuaria. Pés encharcados, a roupa molhada: aguardente, preciso de aguardente e continuar os caminhos de ninguém. Por uma só vez, digo, passei em Vilar de Amargo, à procura do meu amor da Guarda. Subi os montes em redor: e o que lá vi? A pedra maneirinha dos muros a emigrar. Fatal navegação à vista.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O labirinto dos livros

Para que servem? A dúvida morde-me os calcanhares quando entro numa feira do livro. Para que servem os livros? Uns ainda envoltos no cheiro a tinta fresca; outros marcados pelo tempo, com dedadas do tempo. Livros, livros; muita gente no labirinto dos livros. A inutilidade dos livros. Serão leitores? Antigos leitores, futuros leitores, clandestinos escritores a imaginar a glória enquanto observam os livros dos outros? E que procuro eu no labirinto das palavras? A dúvida, eterna dúvida, salta aos calcanhares, segreda-me: Desiste, desiste, pá. Não escrevas: planta glicínias junto da porta das casas abandonadas. Ou uma romãzeira na manhã límpida de Março. É a escrita da terra, a mais simples, a pobre das escritas. Terá sempre leitores. A dúvida. Sempre a mesma dúvida: para que servem os livros? Porque é teimosa e perturbadora, enfim, eu respondo-lhe: para quase nada. Aquele quase assusta-a, afasta-a. E então, avanço liberto no labirinto: revejo velhos livros que me ajudaram a atravessar a noite, ou verteram melancolia na tarde de Agosto, ou me trouxeram a revolta (a revolta também se lê e é contagiosa) em momentos de resignação.
Os livros!
Os livros, os meus livros à frente de toda a gente. Em indefeso silêncio, à espera que alguém os leves. E os ilumine. Como quem planta uma romãzeira para dar outra luz à manhã. Amanhã. Amanhã vou a Braga, à Feira do Livro. Levo a dúvida no bolso – como clandestino leitor.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Da vida das palavras

Guarda-sol



A Mariana
tem um guarda-sol
um lírio
e um caracol

quando está a chover
fica à janela
a ver o lírio crescer


Guarda-chuva


O Francisco
irmão da Mariana
tem um guarda-chuva
e um grilo

todas as manhãs
o sol canta nos seus olhos

Gabardina

O David
irmão do Francisco e da Mariana
tem uma chupeta
quando for grande
nos dias de chuva vestirá a gabardina
[pai, o que é uma gabardina?]
para andar de bicicleta.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Bestiário para as crianças

Cavalo



A mãe contava-me a história do cavalo voador. As suas asas eram enormes e leves, como a luz da manhã.
Um dia, eu pedi:
Mãe, dá-me um cavalo assim!
E como o vais alimentar? Os cavalos voadores precisam de muito penso!
Levo-o pelos campos, pelos prados. Pelos montes floridos.
Filho, o nosso cavalo não come: bebe o brilho das estrelas.
Ainda melhor, mãe. O céu é uma copa de árvore iluminada de estrelas!
Mas à noite, meu filho, tu estás a dormir.
Ainda melhor, mãe. Assim posso galopar por dentro dos sonhos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A memória de Bento da Cruz

Conheço Bento da Cruz há mais de vinte anos. Neste espaço de tempo, ele abeirou-se da idade madura, eu afastei-me da juventude. O tempo. A serenidade do tempo é cruel mão invisível, deixa marca por onde passa. Falo do tempo para lembrar a força maior deste escritor, avesso à efémera claridade mediática, que alguns em vão tentaram empurrar para o silêncio. Bento da Cruz é um escritor do seu tempo. Do nosso tempo. Parte substancial do tempo mais negro do século vinte português entra bruscamente na sua obra singular e perdurará nos tempos que hão-de vir. Porque, melhor do que ninguém, Bento da Cruz trata a memória como matéria perecível. E na memória há palavras privadas de afecto. Isto é: precisam de respirar na página, porque o nosso célere quotidiano padronizado as esquece – e palavra esquecida nem lugar lhe é destinado em língua morta.
A obra literária do autor de O Lobo Guerrilheiro é, sem dúvida, um abrigo de alguns dos nossos mais genuínos vocábulos – que em lenta aluvião se dirigiam ao silêncio final – renascidos, devolvidos à comunidade falante, através de espantosas personagens que são outras das memórias levantadas do chão. O paciente ofício de limpar e enxugar a palavra – perdida nos matagais por pastores enamorados, contrabandistas esquivos ou outros transumantes em fuga que a roda do tempo amarfanhou – é uma das dádivas deste escritor ao nosso tempo, às gerações vindouras. À Língua Portuguesa.
O diálogo vivo, musical, depurado (dir-se-ia de guião cinematográfico) surge como outro dos contributos de Bento da Cruz para a Literatura portuguesa. É a fala mais genuína do povo, um povo concreto – marcado pela miséria, acossado por senhores terrenos e temente a Deus – que ao longo de séculos talhou a paisagem agreste. Um povo, no entanto, capaz de grandes gestos de humanidade mesmo em situações adversas. A solidariedade dos humildes é a mais sincera de todas.
Os livros de Bento da Cruz preservam essa memória (matéria perecível) do povo do Barroso. A dignidade do povo dos grandes gestos de humanidade. O povo do Barroso que soube acolher os fugidos, quando “os maus ventos” uivavam do outro lado da fronteira. A memória da Guerra Civil de Espanha, revivida ou reescrita do lado de cá, emerge como outro dos legados de Bento da Cruz aos homens do nosso tempo e às gerações do futuro. Uma mão chega para contar os escritores que, antes de Bento da Cruz, ousaram atear esse passado sangrento. Mas o autor de O Retábulo das Virgens Loucas não teme a memória, ele conheceu guerrilheiros rojos e outros fugidos. Homens acossados pelos franquistas e pelos fascistas portugueses, homens sem pátria, com os sonhos libertários tolhidos, privados de quase de tudo. Essa memória, enfim, jamais poderia ser olvidada. E não foi. Bento da Cruz evoca a Guerra de Espanha e traz à claridade a dignidade do seu povo. A dignidade em tempos conturbados é um tesouro incalculável: guardar silêncio, não denunciar às autoridades a presença de bandoleiros (as autoridades portuguesas designavam assim os refugiados de Espanha) era crime. E houve, por muitas aldeias do Barroso, homens e mulheres que não traíram: deram abrigo, o pão e o vinho a esses homens transidos. Ao transportar para a nossa Literatura a heróica dignidade das gentes do Barroso, nas décadas de trinta e quarenta do Século XX, Bento da Cruz enobrece todos os portugueses que recusaram a tirania. E aqui reside outra originalidade da sua obra: voluntariamente localizada, é certo, mas os sentimentos não têm fronteiras. Bento da Cruz é um escritor do Barroso, um grande escritor português.

(texto lido na homenagem ao escritor, no seu 80º aniversário,em Montalegre)

Outono

das aves caem
as penas.
emigram as árvores
à procura de outro sol.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sede

O que bebem os rios
quando têm sede: o sono
dos peixes,
a sombra dos salgueiros
ou a seiva do estio?

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Machico

As rãs nas folhas
do nenúfar
humilde manhã de sol
junto ao antigo forte

fotografo-as
como se fosse possível
guardar a felicidade

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Laranja

o frio dos meninos
pobres nas manhãs de inverno
cheira a laranjas.

[Bestiário para as crianças]

Cisne


Seria mais autêntico
escrever cisne com S.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Especiarias

Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos

inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores



(in Pequeno Livro da Terra
)

domingo, 7 de outubro de 2007

[Pássaros maduros]

com a palavra sulfato *
as árvores: crescem pássaros maduros
e bons nos ramos. à tardinha chegam de longe
os frutos de plumagem rara - pernoitam
por entre as folhas









* não é tóxico; os pássaros podem ser colhidos directamente do produtor.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Enquanto escrevo magnólia

Descobri Rosalia e a Galiza sem homens para colher o pão. Fui menino, outra vez límpido menino, acabado de nascer. No Maio da tua voz aprendi a mágoa que se estendia ao outro lado do mar. A tua magoa criativa: se fez fogo por dentro da noite, por dentro da medo. No regresso do outro lado, velei o soldadinho morto, violetas e o meu silêncio todo ofereci à menina dos olhos tristes que nos esperava no cais. Por muitas geografias nos levou a tua voz, a palavra quase sempre rente ao povo que é onde começa tudo: a tristeza e a revolta.
Dádiva imaterial a tua, Adriano. Cheia de silêncio, cheia de memórias, cheia de Portugal. Procuro a tua a mágoa enquanto escrevo magnólia florida no mês de Março.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

[A insânia dos livros]

A palavra. Que estranha veação é a minha. A palavra. Porfio-a na folha das árvores, remota insânia dos livros sagrados. Acto venatório sem perdigueiro que adestre o silêncio, vedado ao ímpeto cruel dos furões. Inerme, procuro a palavra no rumor da brévia.

(in Brévia)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Segunda pessoa

Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.

Óscar Lopes


Óscar Lopes faz hoje (2 de Outubro) 90 anos. Nas noites de insónia escreve poemas, mas só o que aqui transcrevo, Segunda pessoa, foi publicado, há mais de duas décadas, na Ilha dos Amores, edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Linguista, historiador da literatura, ensaísta, leitor apaixonado, Óscar Lopes deu a vida toda à "pobre gente, toda gente": a avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista. "E eu", contou um dia, "chorei, porque ela chorou".

sábado, 29 de setembro de 2007

Alvião

A nossa casa ficava quase a meio da encosta. Na Primavera, pela tardinha, descíamos ao rio por um trilho de pedra solta, entre estevas e vinhedos. Um dos cântaros iludia a sede da laranjeira; com a outra água a minha mãe fazia a sopa, lavava a louça. A que sobejava era para nosso asseio. Ao cair da noite, eu e a minha mãe sentávamo-nos na soleira a cativar o aroma doce e florido da laranjeira. Eu sei, duvidará da minha história. Todos nós tivemos infância: a minha adormeceu na casa térrea a olhar um rio. O avô, pouco interessa o nome, o meu avô plantou a laranjeira em frente da casa, na terra de xisto, como se deveras quisesse afrontar a natureza. Venceu. Vezes sem conta, no entanto, teve de rumar ao rio, quando o Verão sufoca o murmúrio das fontes. Eu e a minha mãe recebemos e tratámos, zelosas, a herança. Desconheço se a casa resiste, terá telhado, a porta. Qualquer dia, meto-me no comboio e afugento a dúvida. Uma coisa é certa: não a vendi. Se o tempo a diluiu na paisagem, força não teve, nunca terá, para engolir o chão. Um pedaço acanhado de terra, afinal tudo o que me resta. Por que não me olha? O meu corpo... Sim, meto-me no comboio e regresso à memória da casa. Nada temo, ninguém me conhece: a aldeia ficava distante como o rio, ou mais longe. E as pessoas da minha criação, como eu, fugiram da penúria; aos velhos a terra, no devagar secreto, já terá furado e bebido os olhos. Talvez a laranjeira desobedeça à morte, muitos galhos secos, por certo, e uma pequena mancha de verdura – sem viço, contudo, para brotar as mais doces laranjas da minha vida.
Depois de abrir a cova, a golpes de alvião, sabe o que é um alvião?, na terra de pedra desirmanada, o meu avô chamou a filha. Em tom de prece, disse: “S. Frutuoso bote o fruto”. E S. Frutuoso, pelo menos enquanto vivi a olhar o rio, foi benigno, como parecem ser todos os santos da devoção de homens laboriosos. Meto-me no comboio... Por que não olha para mim? Se quiser, de verdade, conhecer a história observe o meu corpo. Muitos homens o percorreram. Homens a tresandarem a álcool, suor; homens perfumados. Bruscos, homens silenciosos como choupos, um ou outro tocado pela delicadeza. Por todos reparti amargura, a todos prestei felicidade. Não. Peço-lhe, pare. Felicidade é palavra tresmalhada na minha história!
Enquanto recua a fita, falo da tristeza dos choupos. Enfim, tontice... Se me via triste, o avô dizia, Pareces um choupo. O meu avô amava o silêncio das árvores, será essa uma das grandezas dos homens justos... Expulsou a felicidade?... Quando o meu avô comparava a minha tristeza ao silêncio dos choupos, eu ficava furiosa, lampejavam os meus olhos como as pedras que o alvião esmiola a rasgar a terra. Sabe o que é um alvião? Para invadir a minha vida, precisa de saber o que é um alvião. Alvião, alvião... conhece, diga-me, conhece outra palavra leve e tão veloz? Eleva-se no ar como libelinha e logo se precipita como cutelo. Você não acredita mesmo. A mulher da minha rês vedado está o ofício de sopesar a língua. Todo o meu vocabulário, imagina, caberá no reverso de um bilhete de comboio. Engana-se. De herança, o meu avô deixou-nos ainda um livro: nunca o abri, mas, se assim o desejar, conto-lhe o enredo. Nas tardes de Primavera, degustava em voz alta, sentado na soleira, essa antiga história de paixão. Quem ouve palavras envoltas no aroma de laranjeira florida jamais as esquece. Lhaneza, sabe o significado de lhaneza? A palavra irrompe nas primeiras páginas do livro; quando a escutei, pedi ao meu avô e ele suspendeu a leitura. Qual o significado da palavra que nos obriga por momentos a colar a ponta da língua ao céu-da-boca? O meu avô... Acabou a fita? Não me esqueço do que ia dizer...






Posso?
O meu avô não soube explicar, e pareceu-me ter ficado ofendido com ele próprio. Nunca mais lhe interrompi a viagem com as palavras...
Por que grava a minha história?
Numa tarde de Verão, desci sozinha pelo trilho de pedra solta, que cruzava estevas ressequidas e a verdura dos vinhedos. A laranjeira clamava por água. Um homem, de súbito um homem, na vinha, mete a mão ao bolso e mostra moedas. Deixei-o com o brilho na concha da mão, segui caminho. No rio, demorei mais do que o costume, talvez a espera o afugentasse. Devagar subi a encosta, cântaro de barro na cabeça, você não é do tempo dos cântaros de barro, e o desassossego, conhece palavra mais sinuosa, desvanecia à medida que a vinha fugia em cardume para o rio. Já avisto as estevas, mirradas, refúgio de perdizes e víboras... mãos de silêncio e lume acanham-me os seios. Ao contrário das víboras, ataca-me por detrás, à falsa fé como dizia o meu avô, e eu tenho as minhas mãos a aparar o cântaro. O homem grudado a mim, vou descendo a vasilha; sem me descativar, permite que me curve e poise o cântaro na terra. A mão esquerda solta o seio, este, este!... por que não me olha? e tapa-me a boca, mas alguns gritos haviam já golpeado a brandura da tarde.
Valerá a pena, a dor, contar o resto?
O alvião, enfim, fica a saber o que é um alvião. Vi-o no ar, gume de ferrugem (depois da morte do avô ninguém mais lhe dera uso), e logo a descida fatal.
Um dia meto-me no comboio. Compro uma tesoura de poda, corto os galhos mortos da laranjeira. E desço ao rio, desta vez sem o cântaro, sem o olhar predador a espiar-me da vinha... O fotógrafo? Pois, amanhã, já me tinha dito. Avise-o: quero a fotografia assim. Não me acha uma mulher formosa! Olhe as minhas pernas, a mão no sexo... O corpo. A minha história. Desligue o gravador, desligue: deite-se a meu lado, tímido amante. Eu voltarei a ser menina, cântaro à cabeça, pelos vinhedos a caminho do rio. Poise as mãos de silêncio e lume nos meus seios. Não tenha medo, não tenha medo de mim – alvião é palavra perdida.

(in Putas, antologia do novo conto português e brasileiro; Quasi, 2ª edição)

Gato

(eis o bicho que rouba os poemas ao cão…)


O meu gato
esconde nos olhos
um misterioso
caçador de silêncios.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Bestiário para as crianças



Tubarão



Por ser muito perigoso
os marinheiros antigos
conjugavam o nome deste peixe
sempre no futuro.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Notícia breve


vai construir-se uma

fábrica para lavagem

(a seco), desintoxica-

cão e apuro das pala-

vras ainda possíveis.

A armadilha da palavra

Breve palavra: brévia. Em teu redor, a sebe irrompe espessa, intonsa. A noite, mas a noite, agora é noite, é noite de inverno. O canto triste dos tordos fica preso na armadilha da palavra, como se a escrita fosse arte de indagar a morte.


(in Brévia, hidra editores, Árvore, 2005)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Bestiário para as crianças



Gralha


Ave que cultiva a arte
poética: passa a vida
a recriar palavras
a reinventar a língua.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Folhas de plátano

Uma simples imagem abala o lago profundo, a memória. De tão profundo, a água tingiu a limpidez. É sombra, sombra impenetrável. Olhas, olhas e nada vês. Só a tua memória inçada de gestos, palavras deslembradas, folhas de plátano na emigração do Outono, rostos embargados da claridade dos olhos. Uma simples imagem, de repente, te acende a noite. E da matéria de aluvião, assentada nas profundezas, desprendem-se algumas palavras,
Feliz ainda quem
pode encontrar a porta
chorar diante dela.
Os versos de Guillevic sobem, sobem devagar por dento de ti.

Ervas de cheiro

As flores das ervilhas de cheiro são de várias cores, observa o homem. Corta uma flor branca, outra vermelha, outra roxa: cheira-as uma a uma; depois junta-as. Diz, o homem diz, “cada cheiro tem a sua cor, as cores misturam-se, os cheiros: não”. Por Setembro, quando as pequeninas sementes parecem encetar a fuga da ressequida camisa de forças, virá o noitibó debicar a memória aromática. Ave curiosa, este noitibó, diz o homem: nem de luz carece para distinguir as cores.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

caça


Já abateram todas as aves

de espanto

Matéria de aluvião

No silêncio do olhar dos gatos há camadas de memórias: sedimentam-se em aluvião. Matéria de aluvião. Mas que guardam, que defendem , que preservam, todos estes gatos em redor do castelo de Castro Marim? E o olhar dos novos felinos, descobre o homem, herda o mesmo silêncio: adensa a espessura de vida para vida. Matéria de aluvião, a memória. Que desvario cometeram os gatos, quem os condena a arquivar para sempre o silêncio?

domingo, 23 de setembro de 2007

Fala do homem do saco de cabedal

Vendi o coração ao diabo por um copo de vinho
e uma mão cheia de chamas. No vazio do peito
coloquei um seixo afeiçoado.
Tenho no saco de cabedal alguns livros
de lirismo ateu e segredos obscuros
para a emboscada final.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Reler Gorki, emocionado

«Quando eu era miúdo, com os meus 10 anos, quis apanhar o sol com um copo. Peguei no copo, aproximei-me sorrateiramente, e zás, com o copo na parede! Cortei a mão e bateram-me por isso. Quando me bateram, saí para o pátio e vi o sol reflectido numa poça e vá de espezinhá-lo. Fiquei todo enlameado, e voltaram a bater-me... Que fazer? Comecei a gritar ao Sol: “Não me dói, diabo ruivo, não me dói!” E deitava-lhe a língua de fora. Isso consolava-me.»

Fala de Andrei, in A Mãe

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Os pequenos peixes


O homem entra resoluto na noite, gesto em descostume, espanto juvenil de ver estrelas. Contar as estrelas, promessa antiga. “Desempenho impossível”, diz. E regressa a casa, impelido pelo conforto securitário. Desencantado. Antes de fechar a porta, um derradeiro olhar pelo céu limpo: “As estrelas são pequenos peixes, fugido cardume, no mar ao contrário”, diz o homem, a justificar o fracasso a si próprio.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Maçã, matéria humilde

Quem põe a maçã sobre a mesa
e assim cativa o derradeiro poema?
Por certo, mão maternal: trouxe a maçã
e a maçã: a luz do outono
que sabe a vinho novo, a marmelo maduro.

Quem põe sobre a mesa,
no quarto de hospital, uma maçã: a tua infância
passo estugado da rês no silêncio pastoril
o rumor do fio de água num pátio do sul?

Mão maternal, Eugénio
de subtis afectos: afaga a tua vida toda
conhece bem a matéria humilde da poesia.

As árvores

A preto e branco, as árvores perdem a memória.
Vem o Outono e rouba-lhes o nome, o coração
vegetal. Podes ver, a preto e branco, uma bicicleta,
um rosto, um pássaro colorido – as árvores não.
Carecem de luz as árvores, essa claridade estreme
que só os teus olhos distingue, essa luz que amadurece
os frutos, burila as pedras.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Palavras perdidas

a partir do século dezoito
pensar deus em letra minúscula
deixou de ser considerado heresia

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Pelos teus lábios


No mês de Maio como as cerejas pelos teus lábios. Diz o homem do saco de cabedal à rapariga. E a rapariga abandona o largo. A correr, como se fugisse de rude tempestade. Pouco depois, regressam a rapariga, os irmãos e o pai. Caminham lestos, incitados pelo silêncio,

Foi ele!

voz de fogo, voz de fúria.

Pausa breve.

O cerco, e o homem cai por terra, sangue vivo esponta nos lábios. A rapariga, os irmãos (são três) e o pai assim legam o desconhecido. Partem, leves e libertos.

Muito lentamente, o homem se levanta. Sacode as roupas, sacode a dor por gestos mais suaves ainda. Do bolso direito das calças tira o lenço: devagar, o lenço bebe o sangue dos lábios. Do outro bolso sai um cigarro: fuma-o, sozinho, no largo desabitado. Debruça-se, recolhe o saco de cabedal: avança, movimento dolorido, em direcção do nada. Antes de sair do largo (ou da página?), volta-se para mim (silencioso cronista), avisa-me: O narrador protege a personagem, foste tu o instigador do desacato!

Silencioso sou, silencioso fico.

Parado. O homem persiste parado, enxuga ainda os lábios como se os corrigisse. Aguarda, eu sei, uma palavra minha. Por outras aventuras andámos e nunca ninguém lhe fugiu ao respeito. Merece uma explicação, e eu não a sei desencantar. Que terá dito a rapariga à família de ódios silenciosos? Que fogo ancestral espavoriu como animal silvestre? Dos lábios da personagem apenas saiu uma pobre metáfora – e achava-a, erro meu, erro meu, saborosa como fruta da época.

domingo, 16 de setembro de 2007

Porto, anos 80


e eu vi: na parede ao fundo

as árvores voam e

poisavam na leveza dos pássaros

e eu vi

a cerveja no copo


as árvores voavam muito muito

os pássaros tinham musgo verde

e eu vi

era verde o musgo da aves

do fundo da parede do café


as árvores poisavam exaustas

e eu vi

eu vi o vento molhar o teu cabelo


e eu bebi

a cerveja no copo

as árvores estafadas a voar

no teu cabelo


era verde

e eu bebi

no sonho de bebivermos

na parede ao fundo.

sábado, 15 de setembro de 2007

Jugo

os olhos das vacas
são de redonda tristeza
o homem que as cativa (gesto
remoto) ao jugo
nunca, nunca se deteve
nessa melancolia submissa


nem no aroma florido de maio
a caminho da serra

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Vilarinho da Furna


Queixam-se

os peixes: todas as manhãs

a solidão do cardume é perturbada

pelo chocalhar fóssil da rês


quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Paixões, o rosto

o cavalo da memória detém-se na colina
repasta as paixões o rosto
dos amigos de um cidade perdida
entre o douro e o minho

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Zenão e as aparências


zenão media o silêncio

com a imobilidade dos olhos,

o movimento ininteligível

do ser único, eterno,

a ordem imutável

contra a perpétua mudança,

defendia: enquanto caminhava

ao lado dos seus discípulos

Legar a memória















A mulher atravessa a pequena multidão, a alvura
do cabelo aviva o negro da roupa. A mulher oferece
um ramo de cravos ao secretário-geral do partido,
que acaba de entrar, humilde, no arraial. A banda,
pouco antes havia exumado O Baile da Dona Ester,
solta na noite A Internacional. A mulher regressa,
senta-se: os jornalistas interrogam-lhe o gesto
(por que motivo os jornalistas são tão rigorosos a
confirmar a evidência?). "O meu marido foi preso
duas vezes pela polícia política, tempos de fome e
repressão: é preciso legar a memória". Numa panela
enorme há feijoada; na outra, caldo-verde. Os camaradas
comem, cantam a terra sem amos.
O primeiro prémio da tômbola é uma máquina
de lavar: vejo-a a uma ponta do palco, onde o secretário-
geral, com a mesma humildade que chegou ao pinhal
iluminado, arremessa o fogo da palavra: descreve
o nosso rude tempo - acredita, convicto, na possibilidade
de inverter o curso das coisas. S. Pedro da Cova. Agosto.
Noite de Agosto de dois mil e cinco. A ouvir o secretário-
geral do partido há povo, gente pobre na sua maioria.
A antiga comunidade mineira (Trago a camisa roja/
de vinho que auga não bebo") vê a sua terra tornar-se
subúrbio de cidade de subúrbio. Cruel destino
histórico. Um amigo dá-me boleia até ao Porto, antes
do desfecho da festa. Também ele, pressinto, terá
evitado assistir à anacrónica alegria do vencedor do
electrodoméstico. Um verso, vem um verso em meu
auxílio, Não traio, por que insistes!
Às vezes, um verso,um só verso basta.


terça-feira, 11 de setembro de 2007

Memória artesanal















Por Setembro corre o aroma das maçãs. O caçador afaga o
vício dos cães. O escárnio das romãs acirra os frios do
Inverno. E eu, andarilho, num bosque de palavras remotas.
Por Setembro despovoam-se os milheirais, o mosto cabisbaixo
raptado pelas vespas. Da abóbora-menina um derradeiro
e escusado braço - dará flor, jamais fruto. Por Setembro amadurece
o marmelo e pássaro algum o cobiça: fruto humilde e ázimo
que a mulher transmuta em paciente doçura.

S. Pedro do Sul

Os dióspiros incendeiam a manhã
em S. Pedro do Sul, na aldeia do Paraíso.
Nem uma folha, só os frutos: agasalho de lume.

sábado, 8 de setembro de 2007

O homem na névoa lembra-se da mãe


O homem na névoa lembra-se da mãe. “Antigamente os pássaros não voavam”, diz. Dos campos lavrados, diante dos seus olhos, levantam-se pombas, em bando. Campos lavrados de fresco, há sementes ainda em busca do fértil coração da terra: as pombas e de mais aves conhecem bem esta falha, a correria imóvel de grãos indefesos. No mês de Maio (continua a mãe na lembrança), a névoa ilumina as sebes de camélia, as folhas da figueira. Ilumina a magnólia, errante na folhagem densa: a magnólia, a curtir o luto da morte temporã das suas flores.

Depressa o bando se dilui na delicada penumbra humedecida. O homem olha devagar, retém a paisagem. “Antigamente pensava: os pássaros não voam”.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Paixão

os homens pré-históricos
desconheciam o verbo amar.
na partilha da paixão
decepavam o primeiro m de mamute
e ofereciam um raminho de alecrim.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Das coisas triviais

as aves voam
eu escrevo: voar, ave, viagem.

as aves voam.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Nudez reclinada

viajei em todos os eléctricos, josé.
fiz o mesmo nos autocarros do
porto, esses que inçam a cidade
de manhã e a despovoam
ao fim do dia. e ela, josé, não veio
sentar-se ao meu colo. suicidou-se,
por seis meses, a nossa musa?
diz-me, josé: onde poderei achar a nudez
reclinada da mulher azul?
ela não não existe! - insiste o outro,
o outro que trago agachado em mim, josé,
josé diz ao outro, diz-lhe: a mulher azul
já não viaja de eléctrico,
comprou um automóvel.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

vidoeiros

nunca vi éguas selvagens

descerem dos teus seios para o pasto


o pior é galope do cavalo emparedado

na cabeça,

deste cavalo que anseia a fuga a fuga

sempre insatisfeito com a verdura

dos olhos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Prim




















Por que razão

só escrevem poemas

aos gatos?