sábado, 25 de outubro de 2014

Tudo o que não posso ver



eu queria escrever
escrever para ti
uma palavra apenas
que fosse a fotografia
a preto e branco
de tudo o que não posso ver
sem os teus  olhos

estou perdido
num país miserável
feito de restos dos deuses
de deuses de pedra

(cairo, junho de 1992)

*

tenho a paisagem toda


tenho a paisagem toda
frente aos meus olhos
e  não sei se é verdade
as casas abandonadas
dizem-me que sim
que não é verdade
porque a morte também humilha
as pedras
a paisagem toda

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Estou vivo e escrevo sol

a Ruy Belo

Escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol


Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida


Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

António Ramos Rosa

A Palavra e o Lugar
Publicações Dom Quixote, 1977

sábado, 11 de outubro de 2014

A casa



o abandono é movimento quase imóvel
e ao mesmo tempo voraz
redime e castiga
crescem as silvas ao redor da casa
como serpentes fogosas ao pressentir
a ausência de gente
da mão e do gesto
da mãe a chamar por mim da soleira da porta
do ladrar dos cães apontado ao escuro da noite

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sabor de pássaros



esta noite viajo num cigarro
aceso de estrelas
atravesso montanhas aves tontas de frio
redescubro árvores adormecidas
na melancolia do bosque
solto os cães o cio dos cães
e procuro palavras tenras
no impenetrável matagal
o rosto encontra a limpidez
de antiquíssima água onde alguém
morreu procurando-se - mas é noite
só me emaranho no matagal da noite

*
acordo pelo fim da manhã
sabor de pássaros na boca
espreguiço-me na erva:
sobre a fragrância roubada
no bosque pelas abelhas
na mesa as garrafas que a noite deixou vazias
as cartas esquecidas para quem me amava
o relógio com a corda partida

mãe
ó mãe
dê-me uma laranja
sinto a boca amarga


rossas(?) 1984

Manhã

*
Na fresca da manhã
que arrepio suave!:
porque não vens, meu amor,
comigo ser ave?:

(Ser sonho, ser vento
e este pensamento
tão suave...)


Papiniano Carlos

As Florestas e os Ventos
livro apreendido pelo PIDE em 1953
que a Associação dos Jornalistas
e homens de Letras do Porto resgata
do silêncio em rigorosa edição
fac-similada, com texto explicativo
de Bruno Monteiro. A obra é apresentada
dia 13 de Outubro, pelas sete da tarde,
na sede da AJHLP.

sábado, 4 de outubro de 2014

A laranja



a manhã no silêncio dos choupos
à beira da água limpa
como uma noite leve de granito
qualquer dia a luz
será tão nossa que cegaremos os olhos
em farpas de cristal
antiquíssimo como o nosso desejo
o nosso desejo é uma laranja perdida
no rio de ternura violenta
quem me expulsou do paraíso branco
pintado de fresco
pintado de fresco porque é branco
azul é a anulação do preto
o sol é a anulação do azul
em áfrica há sol e azul
em separação de bens

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A noite e o corpo

a noite despe-se
pássaro morto de frio
estertor de corça
ferida pela lasca de sílex

suave aroma de urzes
calcorreia o teu cabelo
*


a noite, pasmo húmido
paixão inútil e obscura
música sedutora para
quem (não) gosta de estar só.


*

encho os pulmões de noite
debruçado na janela
voltada para o coração da cidade

neste momento escrevo essa sensação
um pouco fétida: avariou
o frigorífico do nosso lirismo

*

Porto,1984