sexta-feira, 24 de abril de 2015

SANTO E SENHA

*

Dizer o como, o porquê,
Não posso.
Se me amas, concebes
Deus em mim.


Ruy Cinatti

O Livro do Nómada Meu Amigo
Guimarães Editores,1981

quinta-feira, 23 de abril de 2015

As belas raparigas

*

as raparigas com gabelas de flores,
silêncio pautado de azul longínquo. o rosto
resplandecia em clarões fantasmas: era o tempo
o oiro cabisbaixo na noite. era a força do alecrim
nas batalhas dos demónios
a lua e a lua quieta e limpa
afagava os meninos com o canto dos lírios

Rui Duarte Mangas

as raparigas trazem braçadas de lírio
como se fossem estrelas mortas
hidra editores, s/d

domingo, 19 de abril de 2015

A AMEIXOEIRA

*

A mortalha da água reflecte o caminho
a branca nuvem de outrora
a sombra da nuvem agora na mão.

Recordam-se palavras, lugares,
um gesto impressivo. A luz

coroando de neve a ameixoeira.


Domingos de Oliveira

Devastações e Outros Fastos
ed. Unicepe

sábado, 11 de abril de 2015

RUA DO SOL AO RATO

*
aquilo que sabemos não sabemos
há sempre em cada abraço outra matéria oculta
por dentro da matéria descoberta
é como esta cebola, diz a mãe,
limpando lágrimas

aquilo que já lemos são apenas
os indícios dos passos por andar
o sol que sob as pedras transfigura
as raízes que um dia irão brotar

não há vida que chegue para as palavras
e a ânsia desmedida de as dizer

e a morte é já ali
não tarda nada

Domingos Lobo

Lisboa Modos de Habitar
topografia íntima
ed. althum.com

terça-feira, 7 de abril de 2015

SOBRE UM MOTE DE CAMÕES

*
Se me desta terra for
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.

Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.

Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.

E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.


Manuel Alegre

Praça da Canção


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Leandro Vale

Ele era o último habitante da aldeia, metáfora de todas as aldeias. Imagem do país abandonado. Quando arribar a morte, quem sepulta o derradeiro homem? Ele abriu a cova, ele fez o esquife...  Ele  dera voz e alma, gesto e palavra, a dezenas de personagens: partiu ontem, no mais frio silêncio. Enquanto actor e encenador levaria o teatro às aldeias remotas:  havia vida, havia gente, a pobre gente de quem Leandro Vale sempre esteve próximo.

Sou da árvore genealógica da morte

*
A ferrugem da boca, o pão oxidado da injustiça,
os sons vulcânicos da minha voz em chamas. Sou
da árvore genealógica da morte e da mão
que escreve a habitação supérflua da palavra.
Não sei na verdade o que procuro, não sei
aprender nem esquecer: enquanto procuro, oxido,
oxida-me o pão na boca. Sou como aquele
que regressa inteiro, sou aquele que nunca partiu


Nuno Higino
Rios Sedentos
ed. Letras&Coisas