sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Voz, as vozes

Ouve

este rio é um cardume

de vozes

vozes espavoridas na água

na limpidez da água

e a tua voz

inerme como um lírio

junta-se a todas

as vozes deste rio

Ouve

ouve devagar as vozes:

saberás então o nome

o seu estranho nome

Ele é homem, rio Homem

devora, uiva, engana

como os homens

até se perder no abismo

Mas às vezes é doce como a água


Ouve

o leito de pedras afeiçoadas

vai amortalhar a tua morte

ele é o Homem!

E um dia

ouve

e um dia ele afoga a aldeia

os ódios e os sonhos

afoga as casas

e o amargo cheiro do gado

Ninguém

e ninguém dirá o teu nome!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A fome apátrida das aves

A fome apátrida das aves deixou marca nos dióspiros. O meu filho dorme, o repouso cicatriza a ferida. Brévia, observo a brévia submersa na manhã. Abro a navalha de enxertia: de um só golpe, degolo o cavalo. Já não tenho quarenta anos, digo. A palavra, como a nossa vida, é inexorável substância de aluvião.



(in Brévia, Hidra Editores, 2005)

domingo, 13 de janeiro de 2008

Paixão














Quando chega a Primavera, as folhas da trepadeira iniciam o ofício de cerzir este amor de Outono e Inverno. Um dia, a trepadeira enamorada (parece uma glicínia, não é) engole para sempre as palavras – enxuga a paixão do muro.



(Foto de Augusto Baptista)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Bestiário para as crianças

Bicho-de-conta



Se o ouvires com os olhos
conta-te pequeninas histórias

na palma da mão
ele fará de conta que é uma bola
e emudece subitamente.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Cardume de peixes cegos

Uma simples imagem abala o lago profundo da memória. De tão profundo, a água do lago bebe a limpidez. Torna-se sombra, impenetrável sombra. Olhas, olhas e nada vês. E a tua memória está inçada de gestos, folhas de plátanos na migração do Outono, rostos de mulher embargados dos olhos. Uma simples imagem, de repente, te ilumina: e da matéria de aluvião, sedimentada nas profundezas, desprendem-se algumas palavras,

Feliz ainda quem

Pode encontrar a porta

Chorar diante dela.

Cardume de peixes cegos, os versos de Guillevic, sobe devagar à superfície.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Evocação do triste soldado

Os soldados quando chegavam à aldeia, em gozo de férias (terrível eufemismo) antes da viagem a África, faziam um número de magia. Tiravam o projéctil de uma bala e vertiam a pólvora sobre a laje, no largo do povo. Depois riscavam um fósforo e, extinta a chama voraz, despontava a palavra. Uma palavra negra, agarrada à pedra como gravura rupestre, a cheirar ainda a pólvora. Palavra breve. Podia ser o nome do triste soldado se o seu nome fosse exíguo, amor (consome pouca pólvora, não espevita dúvidas ortográficas), mãe ou sol. A palavra descobria o húmus da escrita no coração da pedra e permanecia viçosa, longos dias - a rescender a morte.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Evocação do cantoneiro

Nunca vi ninguém a ler o código de estrada à sombra dos vidoeiros, na berma de via antiga (zelada por cantoneiro que da tosquia dos cedros fazia esculturas). O código de estrada está cheio de mistério. É um livro nebuloso. Da biografia do autor apenas o nome se conhece. O autor do livro do código de estrada, penso às vezes, deve ser pseudónimo de poeta obscuro que recusa entrevistas, evita partilhar a vida com a turba imensa de leitores. O livro do código de estrada, penso às vezes, tem a grandeza de bíblia universal de um culto clandestino: toda a gente o lê, ninguém (concluída a leitura anotada) o exibe na estante. Também eu o li, sem grande proveito, até ao fim. Para escorraçar o enfado, fiz da leitura acto predatório: caçar uma ganchada de gralhas e erros ortográficos, numa octogésima sétima edição revista e actualizada, é troféu extraordinário! Do livro do código de estrada lembro-me do brilho do papel (enjeitava anotações a lápis), e do agente regulador de trânsito. Personagem que do gesto fez palavra poderosa, mas entrou em contramão na história. Idêntico desfecho teve o cantoneiro, que plantava hidranjas e alecrim na borda da estrada – e, com arte, afligia a liberdade dos cedros.