*
a magnólia no verão oferece a sombra
no inverno ilumina os dias cinzentos
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Luísa Dacosta
*
Uma vez, Luísa Dacosta disse-me que as flores
da magnólia carecem de aroma. Remoí a humilhação
em silêncio: eu, secreto enxertador de alporquia,
que multipliquei a minha magnólia branca pelos jardins
de amigos, desconhecia aquele natural mistério.
As flores da magnólia (inundam de alegria o declínio
do Inverno) estão privadas de odor, mas a sua luz
é aromática. A minha amiga Luísa Dacosta ensinou-me
outra coisa fascinante: o Português é língua
de afectos: o eu adiciona o tu, no presente e no futuro.
Uma vez, Luísa Dacosta disse-me que as flores
da magnólia carecem de aroma. Remoí a humilhação
em silêncio: eu, secreto enxertador de alporquia,
que multipliquei a minha magnólia branca pelos jardins
de amigos, desconhecia aquele natural mistério.
As flores da magnólia (inundam de alegria o declínio
do Inverno) estão privadas de odor, mas a sua luz
é aromática. A minha amiga Luísa Dacosta ensinou-me
outra coisa fascinante: o Português é língua
de afectos: o eu adiciona o tu, no presente e no futuro.
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Corpo Recusado,
Luísa Dacosta,
magnólias
sábado, 14 de fevereiro de 2015
[O que não se deixa dizer]
(...)
hei-de perpetuar o tumulto da claridade o arcaico
o que prevalece pelo inocupado
o que não se deixa dizer
na terra virgem de desastres
se caminhamos pelo imponderável
o simulacri ingenio
a teu lado distinguiremos
entre o caminho que irrompe
a voz dos oráculos
o que se oculta no poema
a permanência do inconclusivo
Como hesitei sobre a luz e a pedra
Quem ó donzelas
Alexandre Teixeira Mendes
A cegueira do Propício
edições do buraco, 2005
hei-de perpetuar o tumulto da claridade o arcaico
o que prevalece pelo inocupado
o que não se deixa dizer
na terra virgem de desastres
se caminhamos pelo imponderável
o simulacri ingenio
a teu lado distinguiremos
entre o caminho que irrompe
a voz dos oráculos
o que se oculta no poema
a permanência do inconclusivo
Como hesitei sobre a luz e a pedra
Quem ó donzelas
Alexandre Teixeira Mendes
A cegueira do Propício
edições do buraco, 2005
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Abraão Zacuto,
Alexandre Teixeira Mendes
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
[O pássaro na cabeça]
*
L'oiseau qui chante dans ma tête
Et me répète que je t'aime
Et me répète que tu m'aimes
Lóiseau au fastidieux refrain
Je le tuerai demain matin.
Jacques Prévert
Histoires
L'oiseau qui chante dans ma tête
Et me répète que je t'aime
Et me répète que tu m'aimes
Lóiseau au fastidieux refrain
Je le tuerai demain matin.
Jacques Prévert
Histoires
sábado, 7 de fevereiro de 2015
DO LADO DO VERÃO
*
Vinha do sul ou dum verso de Homero.
Como dormir, depois de ter ouvido
o mar o mar o mar na sua boca?
Eugénio de Andrade
O Outro Nome da Terra
ed. Limiar
Vinha do sul ou dum verso de Homero.
Como dormir, depois de ter ouvido
o mar o mar o mar na sua boca?
Eugénio de Andrade
O Outro Nome da Terra
ed. Limiar
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Eugénio de Andrade,
os dias imperfeitos
A escrita florida
regresso aos trabalhos
da terra. planto alhos
alguns regos de batata.
as ervilhas de cheiro irão depois
as mesmas mãos das palavras
o mesmo ofício exercem
escrevendo na terra.
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breviário da terra,
escrita florida,
primeiras sementeiras
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Acusação
*
Aos homens de sangue de Versalhes
em 1871
Ergue-te enfim, Justiça vingadora!
Corusque em breve a tua espada ardente!
Eu vejo a Tirania omnipotente,
Enquanto ao longe a Piedade chora...
Nasce rubra de sangue cada aurora,
E o sangue ensopa a terra ainda quente...
É o congresso de sangue o que esta gente
Abriu entre as nações, que o sangue irrora.
Ante o altar encoberto de Futuro
E ante ti, Vingadora, acuso e cito
Estes homens de insídia e ódio escuro!
Endureça minh'alma, e creia e espere,
Com um desejo estoico e infinito,
Só na Justiça que condena e fere!
Junho de 1871
Antero de Quental
Sonetos Completos
ed. Europa América
Aos homens de sangue de Versalhes
em 1871
Ergue-te enfim, Justiça vingadora!
Corusque em breve a tua espada ardente!
Eu vejo a Tirania omnipotente,
Enquanto ao longe a Piedade chora...
Nasce rubra de sangue cada aurora,
E o sangue ensopa a terra ainda quente...
É o congresso de sangue o que esta gente
Abriu entre as nações, que o sangue irrora.
Ante o altar encoberto de Futuro
E ante ti, Vingadora, acuso e cito
Estes homens de insídia e ódio escuro!
Endureça minh'alma, e creia e espere,
Com um desejo estoico e infinito,
Só na Justiça que condena e fere!
Junho de 1871
Antero de Quental
Sonetos Completos
ed. Europa América
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Antero de Quental,
o renascer da Europa
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