segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Fujo da memória


Oiço os teus conselhos
se piso o chão descalço
(era adolescente)

Oiço pedir água
troco

E o teu ventre
pulido
de novo me arrepia


António Reis

Poemas Quotidianos, ed. Portugália, 1966

sábado, 5 de outubro de 2013

A caça

a caça. abriu a caça
os cães pela madrugada dentro sôfregos,
cheios de doçura e morte.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A pequena morte

Tão perturbado amor
este, o que escorre
como a goma das árvores,
este que feito cão
uiva e cintila.

O amor com suas facas, suas cordas,
o seu lenço cigana -
- abrindo as frestas,
dividindo a pele.

Eis a mulher. Deitada sobre os sons
na volúpia da espera:
a pão e água.
Desejando o amor, o risco exangue,
a exposição das coxas,
o temível sabor do homem.

Esperando:
como um ser punido e olhado,
entre cetins desfeitos,
a ferida.

A vagarosa morte,
esse prazer.

Hélia Correia
in A pequena morte

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Invocação

Oh! desgraçada Hispania
de belo nome, rosa
de minúsculas pátrias!

Como podemos ainda
tolerar que os bárbaros
sujem o teu nome?

Francesc Vallverdú
in Poetas Catalães de Hoje

domingo, 28 de julho de 2013

[Não posso adiar o amor para outro século]

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a  minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

A Palavra e o Lugar, Publicações Dom Quixote, 1977

ODE Á BELEZA DA PALABRA


SÓ a palabra vale. Unicamente
ela ilumina o mundo,
dalle claridade ás cousas
e fai nídia e intelixíbel
a confusa escuridade do noso
ser, mortal e indeciso.
Tudo muda. Somente a palabra
permanece, na súa infinitude,
se leva dentro de si a chama
que um día queimou, con
lúcida paixón e con verdade,
a desolada flor da nosa vida.

Manuel María

in As lúcidas lúas de Outono

segunda-feira, 24 de junho de 2013

[Nas cidades do sul]


Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.


Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Luiza Neto Jorge