domingo, 19 de maio de 2013
Os frutos de maio
Por não saber alcançar os ramos mais altos abraçado ao tronco, como faziam os meus amigos de infância, destros e corajosos, trouxe as árvores a pastar na escrita. Desamarradas da terra, as árvores voam. Chegam depois as aves, a cabra, os meus gatos e outros bichos. De repente, deparo: o tempo, as marcas do tempo: abro o portão de uma remota brévia, procuro repouso, água fresca, palavras como perdigueiros cheios de melancolia. Uma sebe de muitos anos separa o poema distante do mais recente. Pouco importa. Nasci, para que conste, numa aldeia cingida por serranias. Um dos montes tem este nome: Marouço. Os fabulosos pastores de tempos antigos, quando o mundo era movido a tracção animal, diziam ouvir do cume dessa serra, a muitas léguas de lonjura, os murmúrios do mar.
A Fome Apátrida das Aves, pref. Manuel Gusmão, ed. Modo de Ler, maio 2013
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Manuel Gusmão,
Modo de Ler
sábado, 18 de maio de 2013
Verossímil
Antigamente, em maio, eu virava anjo.
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
"Canta alto, espevita as palavras bem."
Eu levantava vôo rua acima.
Adélia Prado
Bagagem, Ed. Guanabara
A mãe me punha o vestido, as asas,
me encalcava a coroa na cabeça e encomendava:
"Canta alto, espevita as palavras bem."
Eu levantava vôo rua acima.
Adélia Prado
Bagagem, Ed. Guanabara
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os que vêm de maio
segunda-feira, 22 de abril de 2013
EXPLICAÇÃO DE POESIA SEM NINGUÉM PEDIR
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou sentimento.
Adélia Prado
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os dias imperfeitos
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Poemas imperfeitos
Janela
certas noites por aí
convido a lua
tomamos chá de cidreira
trocamos versos antigos.
Lobo
o solidário: conta
histórias felizes
aos cordeirinhos.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Oración Derradeira
Señor:
Non che pido que camiñes
sobre as augas.
Véñome sentar á túa beira.
As miñas armas
aí están sobor da area.
Deixar que o mar
as vele...
Estou canso!
Pidoche
que as douradas portas
da lonxanías, as peches.
De alí viñan os meus versos.
Ise páxaro brilhante
fatigou a miña frente.
Que sólo unha sombra
seña sobre o mar
Estou canso!
Que os lirios
do sono
caian riba das miñas pálpebras.
Non me fagas ningunha pregunta:
faríasme
volver a empezar.
Coma cando o viático
por unha rúa pasa,
eu quero ise silencio agora,
ise solitario silencio
que se levaron do Sagrario
e que uns instantes
queda pechado e baleiro.
O mar está quedo,
e na area
as miñas modestas armas
vanse sumindo.
Non quero soñar
coas miñas lonxanías misteriosas.
Alonxa ise páxaro brillante.
Que frescura sinte a miña frente
apoiado no teu manto!
Señor, Señor
pecha o meu libro pra sempre!
Luis Pimentel
Sombra do Aire na Herba
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Luis Pimentel,
poesia galega
terça-feira, 26 de março de 2013
A barca dos dias
um dia cheio de chuva
sobe lentamente a barca
na sereníssima água do tempo
talvez a juventude seja sonho incompleto
a bicicleta e o ramo dos lírios
as paixões escondidas no bolso
tão longe, tudo fica tão longe
para onde me leva a barca, eu sei.
vinte e seis de março de dois mil e treze
sobe lentamente a barca
na sereníssima água do tempo
talvez a juventude seja sonho incompleto
a bicicleta e o ramo dos lírios
as paixões escondidas no bolso
tão longe, tudo fica tão longe
para onde me leva a barca, eu sei.
vinte e seis de março de dois mil e treze
sexta-feira, 22 de março de 2013
SEGUNDA PESSOA
Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.
Óscar Lopes
O leitor emocionado partiu hoje. Nas noites de insónia escrevia poemas, mas só o que aqui transcrevo, 'Segunda pessoa', foi publicado, há mais de três décadas, na "Ilha dos Amores", edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Linguista, historiador da literatura, ensaísta, leitor, leitor apaixonado, Óscar Lopes deu a vida toda à "pobre gente, toda gente": a avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista. "E eu", contou um dia, "chorei, porque ela chorou".
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.
Óscar Lopes
O leitor emocionado partiu hoje. Nas noites de insónia escrevia poemas, mas só o que aqui transcrevo, 'Segunda pessoa', foi publicado, há mais de três décadas, na "Ilha dos Amores", edição da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Linguista, historiador da literatura, ensaísta, leitor, leitor apaixonado, Óscar Lopes deu a vida toda à "pobre gente, toda gente": a avó chorou de desgosto quando soube que ele era comunista. "E eu", contou um dia, "chorei, porque ela chorou".
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