quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Para pedir paciência nas adversidades

     Nada te inquiete,
nada te assuste;
pois tudo passa,
Deus nunca muda.
A paciência
alcança tudo.
Quem Deus possui
nada lhe falta.
Só Deus nos basta

Teresa de Ávila

in Seta de Fogo

sábado, 29 de dezembro de 2012

quando um pássaro vier

descerás ao anoitecer
talvez sob um ramo de lua
ou a serpente alada
do silêncio

observarás o fogo e as sombras
a brancura do medo
escurecendo

os primeiros olhos além da arena
a imobilidade o espectro a vertigem

tocarás a terra num volejo
entre metal e harpa
a terra
a terra tocarás

e quando um pássaro vier
cingir o sangue a rosa
ao tempo chamarás memória

em redor cristais apenas ervas
caligrafias de água


José Manuel Mendes

Cinzas de Véspera, ed. poucapena

sábado, 22 de dezembro de 2012

AOS QUE VIRÃO A NASCER



Em verdade, vivo em tempos escuros!

A palavra ingénua é louca. Uma testa lisa

Denota insensibilidade. O que ri

Ainda não recebeu

A terrível notícia.



Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime,

Porque inclui um silêncio sobre tantos malefícios!

O que acolá calmamente cruza a rua,

Não será ele talvez já acessível aos amigos

Necessitados?



É verdade: ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditai-me: é só um acaso. Nada

Daquilo que faço me dá o direito de comer e fartar.

Por acaso fui poupado. (Quando se me acabar a sorte

Estou perdido.)

Dizem-me: Come e bebe! Alegra-te, já que o tens!



Mas como posso eu comer e beber, quando

Tiro ao faminto o que como, e

O meu copo de água falta ao que morre de sede?

E no entanto como e bebo.



Também gostava de ser sábio.

Nos velhos livros vem o que é ser sábio:

Manter-se alheio à luta do mundo, e o curto tempo

Passá-lo sem receio.

Também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não satisfazer os desejos, mas esquecer

Vale por sábio.

E tudo isto é que eu não posso:

Em verdade, vivo em tempos escuros!



Bertolt Brecht

in Poemas e Canções, versão portuguesa de Paulo Quintela

sábado, 15 de dezembro de 2012

ANIMAL AMOROSO E AUDAZ, A PALAVRA



Aqui estamos outra vez, cúmplices, como quem troca pequeninas flores dos montes. Contrabando silvestre que bem conhece. A alegria móvel da terra, como escreveu certa vez, e o movimento perpétuo da palavra facultam-nos o (re)encontro. Seu “ofício de palavra”, mesmo em aparente pousio, é memória sentida desse discreto movimento em demanda da alegria. Ou, talvez seja mais justo dizer, da felicidade escrita no plural. As palavras suas abrigam a frágil ternura da metáfora (“O pavão é uma galinha/em flor”) e, ao mesmo tempo, a grandeza, a força heroica de quem pedala com o passado a tiracolo rumo ao lado solar da vida.

A imaginária bicicleta, revolucionário veículo de combustão da luta de classes (hoje para muitos, ironia da história, instrumento de queimar calorias), atravessou arrojada, firme, a grande “noite de pedra”. O destino, foi dito, era o devir. O dia limpo e “à flor desse dia,/ a primeira respiração/ a primeira água da alegria”. Rude, perigosa, agreste viagem truncada pela prisão, pelo exílio – que é nome comum de cárcere e saudade. A palavra, porém, por perto. Sempre por perto, rente ao silêncio quando a brutal incomunicabilidade imposta tudo saqueava. Quase tudo. Animal amoroso e audaz, a palavra resistia: “Habitas em mim/ mesmo que dês outra morada”.

Nuvem negra, caro Luís Veiga Leitão, volta a estender mão fria por cima das nossas cabeças. A noite. A noite antiga e os seus novos feitores, céleres, começam a reerguer os muros, de pedra e indignidade, na alegria móvel da nossa terra. Mais do que nunca, as gerações que não vieram dos “cárceres da noite” precisam (re)descobrir o seu lirismo fraterno. E a bicicleta?

A bicicleta vamos precisar dela, “para que a beleza e a rebeldia/ não se percam”.

Francisco Duarte Mangas

[nota de abertura de A Bicicleta e Outros Poemas, de Luís Veiga Leitão, ed. Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O TERCEIRO CICLISTA



                         A Papiniano Carlos



Os ciclistas rompem exaustos

na bruma. homens de outro tempo

pedalam no subúrbio libertos do medo

urbano. há um que fuma devagar

enquanto pedala como se quisesse

adensar a bruma. outro traz relógio

no pulso e uma mola afasta as calças

do óleo da corrente. o terceiro ciclista

pedala pedala

pedala: mavioso movimento

na direcção talvez do devir

deixa a palavra na miséria do subúrbio

nas grandes alamedas

no largo de longínquas aldeias



O ciclista que traz o relógio no pulso

diz: “desperdício, companheiro.

vão pisar as palavras: virá a primavera

não botarão flor!” o terceiro ciclista

mantém o movimento o gesto de semeador

a viagem interminável viagem

na direcção talvez do futuro

sabe que o frágil coração da palavra

é inabalável

imperecível como a vida dos sonhadores.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O BANQUETE


Os bárbaros voltaram à cidade

Que temos para negociar?

Vêm negociar a alma,
senhor  presidente.

Qual  alma?

A nossa,  nossa  alma.

Manda preparar um banquete.

Para quem,
senhor presidente?

É preciso receber com dignidade os amigos
o que seria de nós sem os bárbaros?

Não temos mais nada para lhes dar

temos a alma, a nossa alma soberana!

sábado, 20 de outubro de 2012

O PÁSSARO DA CABEÇA



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António Pina
O Pássaro da Cabeça, ed. A Regra do Jogo