sábado, 15 de dezembro de 2012

ANIMAL AMOROSO E AUDAZ, A PALAVRA



Aqui estamos outra vez, cúmplices, como quem troca pequeninas flores dos montes. Contrabando silvestre que bem conhece. A alegria móvel da terra, como escreveu certa vez, e o movimento perpétuo da palavra facultam-nos o (re)encontro. Seu “ofício de palavra”, mesmo em aparente pousio, é memória sentida desse discreto movimento em demanda da alegria. Ou, talvez seja mais justo dizer, da felicidade escrita no plural. As palavras suas abrigam a frágil ternura da metáfora (“O pavão é uma galinha/em flor”) e, ao mesmo tempo, a grandeza, a força heroica de quem pedala com o passado a tiracolo rumo ao lado solar da vida.

A imaginária bicicleta, revolucionário veículo de combustão da luta de classes (hoje para muitos, ironia da história, instrumento de queimar calorias), atravessou arrojada, firme, a grande “noite de pedra”. O destino, foi dito, era o devir. O dia limpo e “à flor desse dia,/ a primeira respiração/ a primeira água da alegria”. Rude, perigosa, agreste viagem truncada pela prisão, pelo exílio – que é nome comum de cárcere e saudade. A palavra, porém, por perto. Sempre por perto, rente ao silêncio quando a brutal incomunicabilidade imposta tudo saqueava. Quase tudo. Animal amoroso e audaz, a palavra resistia: “Habitas em mim/ mesmo que dês outra morada”.

Nuvem negra, caro Luís Veiga Leitão, volta a estender mão fria por cima das nossas cabeças. A noite. A noite antiga e os seus novos feitores, céleres, começam a reerguer os muros, de pedra e indignidade, na alegria móvel da nossa terra. Mais do que nunca, as gerações que não vieram dos “cárceres da noite” precisam (re)descobrir o seu lirismo fraterno. E a bicicleta?

A bicicleta vamos precisar dela, “para que a beleza e a rebeldia/ não se percam”.

Francisco Duarte Mangas

[nota de abertura de A Bicicleta e Outros Poemas, de Luís Veiga Leitão, ed. Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O TERCEIRO CICLISTA



                         A Papiniano Carlos



Os ciclistas rompem exaustos

na bruma. homens de outro tempo

pedalam no subúrbio libertos do medo

urbano. há um que fuma devagar

enquanto pedala como se quisesse

adensar a bruma. outro traz relógio

no pulso e uma mola afasta as calças

do óleo da corrente. o terceiro ciclista

pedala pedala

pedala: mavioso movimento

na direcção talvez do devir

deixa a palavra na miséria do subúrbio

nas grandes alamedas

no largo de longínquas aldeias



O ciclista que traz o relógio no pulso

diz: “desperdício, companheiro.

vão pisar as palavras: virá a primavera

não botarão flor!” o terceiro ciclista

mantém o movimento o gesto de semeador

a viagem interminável viagem

na direcção talvez do futuro

sabe que o frágil coração da palavra

é inabalável

imperecível como a vida dos sonhadores.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O BANQUETE


Os bárbaros voltaram à cidade

Que temos para negociar?

Vêm negociar a alma,
senhor  presidente.

Qual  alma?

A nossa,  nossa  alma.

Manda preparar um banquete.

Para quem,
senhor presidente?

É preciso receber com dignidade os amigos
o que seria de nós sem os bárbaros?

Não temos mais nada para lhes dar

temos a alma, a nossa alma soberana!

sábado, 20 de outubro de 2012

O PÁSSARO DA CABEÇA



Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António Pina
O Pássaro da Cabeça, ed. A Regra do Jogo

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Da liberdade interior

Curvei-me


para beijar

as negras e bem polidas botas

do nosso amo

e então ele disse:

mais!



Curvando-me mais

senti

com prazer

a resistência

da minha coluna

que não queria estar dobrada



Feliz, verguei-me ainda mais

reconhecido ao nosso amo

por esta descoberta

da minha dignidade

e força

interiores



Erich Fried





segunda-feira, 24 de setembro de 2012

À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos na ágora reunidos?

        É que os bárbaros chegam hoje.



Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?


        É que os bárbaros chegam hoje.

        Que leis hão de fazer os senadores?

        Os bárbaros que chegam as farão.



Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?



         É que os bárbaros chegam hoje.

        O nosso imperador conta saudar

         o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

         um pergaminho no qual estão escritos

         muitos nomes e títulos.




Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos,

de ouro e prata finamente cravejados?


         É que os bárbaros chegam hoje,

         tais coisas os deslumbram.



Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?


         É que os bárbaros chegam hoje

         e aborrecem arengas, eloquüências.



Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?


         Porque é já noite, os bárbaros não vêm

         e gente recém-chegada das fronteiras

         diz que não há mais bárbaros.



Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.



Konstantinos Kaváfis

trad. José Paulo Paes


Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982



terça-feira, 28 de agosto de 2012

A CASA


O homem só escuta a voz calma
de olhos semicerrados, como se uma respiração
lhe aflorasse o rosto, uma respiração amiga
que ressurge, incrível, do tempo passado.

O homem só escuta a voz antiga
que em tempos idos os seus pais ouviram, clara
e recolhida, uma voz que é como o verde
dos pauis e das colinas, que escurece com a tarde.

O homem só conhece uma voz de sombra,
cariciosa, que brota em tom calmo
de um manancial secreto: absorto, bebe-a
de olhos fechados, não parece estar junto a ela.

É a voz que um dia fez deter o pai
do seu pai e cada um dos antepassados.
Uma voz de mulher que soa secreta
junto da soleira da casa, ao cair do escuro.

Cesare Pavese
trad. Rui Caeiro
O Vício Absurdo, ed. & etc