quinta-feira, 28 de junho de 2012

Pavese outra vez

Em qualquer ofício ou profissão é possível viver segundo
o cliché desse ofício ou profissão, isto é, fingindo.
Mas o escritor ou artista não. Seríamos bohémiens,
cretinos insuportáveis. Porquê? Porque a arte e o
escrever não são ofícios, pelo menos na nossa época.

Cesare Pavese
in Ofício de Viver, Diário (1935-1950)
Portugália Editora 1968

quarta-feira, 27 de junho de 2012

4. POVO



Pequeno povo, luta sem espadas e sem balas
pelo pão, pela luz e pela canção de todo o mundo.


Guarda sob a língua os gemidos e os vivas
e quando se decide a cantá-los, até as pedras rebentam.


Giánnis Ritsos
Dezoito Dísticos para a Pátria Amargurada (1973)

In Antologia, trad. Custódio Magueijo
Ed. Fora do Texto, Coimbra 1993

quinta-feira, 31 de maio de 2012

AGUA DORMIDA

Quiero saltar al agua para caer al cielo.


Pablo Neruda

Crepusculario
Editorial Losada, Buenos Aires, 1961

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cimeira ibérica

os grandes plátanos
sereníssimos
na alfândega do porto
rodeados de autoridade



tantos polícias
e as árvores não voam
nem escondem armas brancas
no meio da sua verdura

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A barca da alegria

o que há de vir
será a coisa mais linda

prepara a barca da alegria
vais precisar dela.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A PALAVRA É UMA BELA CEREJEIRA

povoa-se a palavra
de pequenina flor branca.
a palavra é uma bela cerejeira
se a escrevo no mês de abril.

vêm as chuvas
esborratam a brancura
se transmuta em cereja
a palavra que fica rubra
quando maio a mão a escreve.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

FRAQUEZA PEQUENO-BURGUESA

Custa-me
sentir-me por vezes
sozinho
entre camaradas
mas claro
que isso não é
proibido


É verdade
que também conheço
camaradas
que gostariam de proibi-lo
Entres esses
sinto-me
sozinho


Erich Fried

in 100 Poemas sem Pátria