o que há de vir
será a coisa mais linda
prepara a barca da alegria
vais precisar dela.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
terça-feira, 17 de abril de 2012
A PALAVRA É UMA BELA CEREJEIRA
povoa-se a palavra
de pequenina flor branca.
a palavra é uma bela cerejeira
se a escrevo no mês de abril.
vêm as chuvas
esborratam a brancura
se transmuta em cereja
a palavra que fica rubra
quando maio a mão a escreve.
de pequenina flor branca.
a palavra é uma bela cerejeira
se a escrevo no mês de abril.
vêm as chuvas
esborratam a brancura
se transmuta em cereja
a palavra que fica rubra
quando maio a mão a escreve.
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quarta-feira, 4 de abril de 2012
FRAQUEZA PEQUENO-BURGUESA
Custa-me
sentir-me por vezes
sozinho
entre camaradas
mas claro
que isso não é
proibido
É verdade
que também conheço
camaradas
que gostariam de proibi-lo
Entres esses
sinto-me
sozinho
Erich Fried
in 100 Poemas sem Pátria
sentir-me por vezes
sozinho
entre camaradas
mas claro
que isso não é
proibido
É verdade
que também conheço
camaradas
que gostariam de proibi-lo
Entres esses
sinto-me
sozinho
Erich Fried
in 100 Poemas sem Pátria
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a um dia do paraíso,
Erich Fried
segunda-feira, 26 de março de 2012
O devaneio da escrita
um bando de gralhas sobre
a escrita
imoral como gavião que cativa
indefeso perdigoto.
que procura o bando: o coração ferido
da palavra ou agasalho nos ramos frios do inverno?
digo, traz a caçadeira
e cartuchos de chumbo 8: este espéce de gralha
maior não é que tordo de papo ruivo.
retomo o rito antigo de caça
pela luz da alva
dissimulado na brancura do papel
a velha espingarda de canos parelelos aperrada
mas o descuido do cão pisa a tinta fresca
espanta a espécie no devaneio da escrita
na primavera audaz cheia de devir.
a escrita
imoral como gavião que cativa
indefeso perdigoto.
que procura o bando: o coração ferido
da palavra ou agasalho nos ramos frios do inverno?
digo, traz a caçadeira
e cartuchos de chumbo 8: este espéce de gralha
maior não é que tordo de papo ruivo.
retomo o rito antigo de caça
pela luz da alva
dissimulado na brancura do papel
a velha espingarda de canos parelelos aperrada
mas o descuido do cão pisa a tinta fresca
espanta a espécie no devaneio da escrita
na primavera audaz cheia de devir.
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primavera audaz cheia de devir
terça-feira, 20 de março de 2012
sábado, 21 de janeiro de 2012
Crónicas de Morfina Mendes
O Prof. Cavaco Silva, "provedor do povo", passa por dificuldades. A reforma é curta, sequer dá para as tesouras da poda. O Prof. Cavaco, um dos muitos reformados deste país forçados a trabalhar até ao fim, nos raros momentos de lazer poda as suas laranjeiras. E nessa arte, dizem-me, o "provedor do povo" demonstra habilidade. Este país, desde a sua longínqua génese afonsina, foi desenhado, conquistado, arroteado para os velhos. Reforma curta, nem chega para compor o avental, ou adquirir o apetrecho para a solidão digital, ou a embalagem de comprimidos que afugentam pesadelos. Noites frias, velhice fria, reforma fria como as mãos dos velhos. Ao povo português coube um "provedor" da penúria; depois de uma longa e árdua vida de trabalho, duas reformas, somadas, igual a miséria. Miséria, miséria. Este país, talvez pelo sabor a vinho do Porto, não é para os novos. A reforma breve. Talvez o Dr. Mário Soares, num dos seus gestos de travar o fim da (nossa) História, se candidate à presidência da JS. Talvez o Dr. Artur Santos Silva, num sublime acto de despojamento, abandone a Gulbenkian e se dedique a escrever a biografia de um tal Sebastião Ribeiro, jurista, defensor de antifascistas, republicano, expulso pela Ordem dos Advogados. Caído no olvido. Talvez o Prof. Eduardo Catroga, num gesto humilde, abdique da EDP e dos outros sítios onde administra e adicione sua reformita à reformita do “provedor do povo” e, seguindo o exemplo de Mofina (ou morfina) Mendes, criem o primeiro banco mundial para financiar os velhos que precisam de trabalhar quando chegam a velhos.
Um país com “o provedor do povo” na penúria, sem dinheiro nem saliva para comprar e colar os selos para as cartas de reposta às cartas que recebe do povo, da plebe, um país assim nem é sequer um “lugar mal frequentado”. É o vazio. É indignidade. É o nada – e “nada nos falta porque nada temos”.
Um país com “o provedor do povo” na penúria, sem dinheiro nem saliva para comprar e colar os selos para as cartas de reposta às cartas que recebe do povo, da plebe, um país assim nem é sequer um “lugar mal frequentado”. É o vazio. É indignidade. É o nada – e “nada nos falta porque nada temos”.
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O povedor do povo
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
A queda do muro
Praga de gafanhotos, primeiro. Arruína sementeiras, flor, os frutos. A Primavera surge sem a cor e os seus cheiros, parece a terra coberta por penas de corvos – sisudas aves mais velhas que a eternidade. Depois, as chuvas. Abundantes, espessas. Nem os remotos sumérios teriam assistido a dilúvio igual. Calamidade. Dívida por saldar a apócrifos deuses: “Engorda, o monstro”. São estas palavras, apenas e só, do presidente da devastada República de Erros Meus, Má Fortuna, no facebook. Ele, homem da caneta, remoçava através da moderna, barata, e limpa forma de solidão dividida. Poupa no papel, na voz, na imagem. E está em todo o lado, toda a parte, à semelhança do Deus bíblico que nos vigiava a infância. Cada mensagem, concisa, a lembrar imaculado haiku, logo repousa em frondosa base de “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”. A última, a do monstro, súbito se povoaria do lisonjeiro e original comentário. Uma dúvida assombra a serenidade presidencial. Gostam do monstro ou da metáfora? Se é do monstro, a insânia devora em definitivo a ditosa pátria sua; se foi a imagem, desvario de igual modo será. Calamidade. “Monstro apátrida”, reconhece, pela primeira vez. “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”.A enxurrada suaviza, reúne o Conselho. O mais velho profere: “É preciso escorchar o monstro”. Depois de sucinta evocação da penúria no tempo de uma sardinha matar fome a duas bocas, o presidente arremessa a palavra mágica. “Poupar, meus senhores. Truncar o supérfluo”. Em tom visionário, anuncia. “O país tem um nome extenso, dispendioso”. Pausa, cerra os olhos (será essa sua forma fadista de juntar grandes números redondos). “O dinheiro dispendido na vírgula dá para construir quatro estádios de futebol, um aeroporto moderno, sete pólos, sete, universitários no interior!” Sem votos contra, cai a vírgula, o muro, desagrega-se a Má Fortuna. Da pobreza beneditina, o homem da tinta permanente colhe a virtude do despojamento: arma contra metáfora apátrida. Nasce a República de Erros Teus. De velha pátria cansada, desacreditada, apruma-se país novo, maneirinho no dizer como livro de bolso. Um conselheiro felicita “a brutalidade” do corte, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”. Todavia, sublinha, o nome afigura-se ainda sumptuoso, despesistas: para quê dois se um r basta.“Só Deus basta!”Grita outro conselheiro, antigo ministro, agasalhado por três reformas e a dedicar-se à hagiografia. Ninguém ouve o grito contra a heresia. Golpe de génio, o r a menos. O presidente ergue-se, aproxima-se do conselheiro: “Afectuosamente o abraço. acaba de salvar a pátria”. Ou outro diz: “Em nome de escorchar o monstro, os advérbios no modo como o que acaba de dizer, açambarcadores de espaço, devem ser banidos”. “Aprovado”, rejubila o presidente de Eros Teus.Anunciada a medida, imenso cardume “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, “gosto”, navega feliz na página oficial. Um seguidor fura essa espécie de unicidade de peixe de viveiro, escreve: “gosto perdidamente”. A notícia, as sociais não são rede de pesca, corre mundo. “Castidade deixou de ser virtude”, murmura o chefe do Estado ou ouvido do hagiógrafo. “Lembre-se: um país sedutor, mesmo pequeno, nunca é completamente pobre”.
Publicado no JL
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