O céu imensamente
cinzento: virá a tempestade
diluir o florido silêncio
das magnólias?
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sábado, 5 de fevereiro de 2011
amigos do poeta
Um importante editor português disse, há dias, que a poesia está condenada a edições residuais, de autor, porque o “mercado” esgota-se na meia dúzia de amigos do poeta. O fim da utopia decretado pela mais-valia. “Não tenho tempo para ser eterno” - terá lido o empresário, num dos últimos livros de poesia publicados neste país.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Noite fria
Noite fria, muito fria. Cavaco por mais
cinco anos.O verso
de Herberto: “Puta de vida subdesenvolvida”.
cinco anos.O verso
de Herberto: “Puta de vida subdesenvolvida”.
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Por este inverno
daqui vejo a lua
tão grande como o desejo
agora vou embora
um pouco mais velho
algumas palavras cabisbaixas
nos bolsos
um sorriso tímido
na lapela
agora vou embora
por este inverno de magnólias florido
tão grande como o desejo
agora vou embora
um pouco mais velho
algumas palavras cabisbaixas
nos bolsos
um sorriso tímido
na lapela
agora vou embora
por este inverno de magnólias florido
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dócil matilha, as palavras, ao redor de uma mulher e sua mágoa antiga. Há um livro, herdado de outra mulher, que a ajuda a atravessar o bosque e as ciladas da narrativa. Rente a morte, conta ao neto, ainda menino, a sua história; pede-lhe para guardar as palavras com alma. Narra devagar, como se tivesse receio de esvaziar o passado, o lado solar da sua vida. A rapariga dos lábios azuis e o fogo de história mais íntimas ficam, todavia, na obscuridade. É a vez do neto intentar reconstruir esse passado indizível através de uma camélia. Memória de uma mulher segregada de oitocentos, que percorre grande parte do século vinte. Memória também das árvores (“são como homens”), e das palavras – derradeiro afecto para obstruir a barbaridade.
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A Rapariga dos Lábios Azuis
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
As coisas do mundo
Os utopianos desconheciam os autores gregos. Viram pela primeira a melancolia num viageiro português que aportou na ilha. Mas na sua língua não existia vocábulo algum capaz de enxugar a discreta tristeza. O viageiro ofereceu-lhes os livros, entre eles o Tratada sobre as Plantas, da sua biblioteca andarilha. Agradeceram o gesto, a dádiva. Um dos utopianos quis saber: Sois vós o Fernão Mendes Pinto? Não, não era, nem podia ser. Então, o insular fez nova pergunta: a indizível palavra a amortalhar o rosto do viageiro dizia respeito às paixões da alma ou à frivolidade das coisas do mundo?
domingo, 2 de janeiro de 2011
A caça e o jogo
No jogo de matraquilhos, como na caça, ganha quem é mais rápido. Ou quem se protege na astúcia. Na caça, de modo geral, a astúcia tem a forma do medo: é engenho de animal transido, ágil no dissímulo. Os que conseguem juntar rapidez e astúcia são mestres de matraquilhos. Embora no jogo, certas vezes, o imponderável roube os louros a quem os merecia.
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