terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Por este inverno

daqui vejo a lua
tão grande como o desejo
agora vou embora
um pouco mais velho
algumas palavras cabisbaixas
nos bolsos
um sorriso tímido
na lapela

agora vou embora
por este inverno de magnólias florido

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011


Dócil matilha, as palavras, ao redor de uma mulher e sua mágoa antiga. Há um livro, herdado de outra mulher, que a ajuda a atravessar o bosque e as ciladas da narrativa. Rente a morte, conta ao neto, ainda menino, a sua história; pede-lhe para guardar as palavras com alma. Narra devagar, como se tivesse receio de esvaziar o passado, o lado solar da sua vida. A rapariga dos lábios azuis e o fogo de história mais íntimas ficam, todavia, na obscuridade. É a vez do neto intentar reconstruir esse passado indizível através de uma camélia. Memória de uma mulher segregada de oitocentos, que percorre grande parte do século vinte. Memória também das árvores (“são como homens”), e das palavras – derradeiro afecto para obstruir a barbaridade.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As coisas do mundo

Os utopianos desconheciam os autores gregos. Viram pela primeira a melancolia num viageiro português que aportou na ilha. Mas na sua língua não existia vocábulo algum capaz de enxugar a discreta tristeza. O viageiro ofereceu-lhes os livros, entre eles o Tratada sobre as Plantas, da sua biblioteca andarilha. Agradeceram o gesto, a dádiva. Um dos utopianos quis saber: Sois vós o Fernão Mendes Pinto? Não, não era, nem podia ser. Então, o insular fez nova pergunta: a indizível palavra a amortalhar o rosto do viageiro dizia respeito às paixões da alma ou à frivolidade das coisas do mundo?

domingo, 2 de janeiro de 2011

A caça e o jogo

No jogo de matraquilhos, como na caça, ganha quem é mais rápido. Ou quem se protege na astúcia. Na caça, de modo geral, a astúcia tem a forma do medo: é engenho de animal transido, ágil no dissímulo. Os que conseguem juntar rapidez e astúcia são mestres de matraquilhos. Embora no jogo, certas vezes, o imponderável roube os louros a quem os merecia.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Lugar nenhum

os utopianos cultivavam uma arte incomum: a felicidade, a procura da felicidade, nos ritos da terra. todos eles plantaram pelo menos um sicómoro. todos eles, os utopianos, subiram ao ramo mais alto da bíblica árvore para verem lá longe em lugar nenhum, na geografia do devir, a cabeça sem corpo de tomás morus.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Rapina

bebamos a mágoa branca
do inverno
entretanto a magnólia
mostra seus esporões
falsa árvore
de rapina
em breve vai florir
o sono dos pássaros.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Conflitos entre herdeiros universais

O meu Marx há-de arrancar
as barbas ao teu Marx

O meu Engels há-de partir
os dentes ao teu Engels

O meu Lenine há-de esmigalhar
os ossos ao teu Lenine

O nosso Estaline há-de meter
uma bala na nuca do vosso Estaline

O nosso Trotzki há-de rachar
a cabeça ao vosso Trotzki

O nosso Mao há-de afogar
o vosso Mao no Yang tse

para que deixe de obstruir
o caminho da vitória

Erich Fried

100 Poemas sem Pátria