O meu Marx há-de arrancar
as barbas ao teu Marx
O meu Engels há-de partir
os dentes ao teu Engels
O meu Lenine há-de esmigalhar
os ossos ao teu Lenine
O nosso Estaline há-de meter
uma bala na nuca do vosso Estaline
O nosso Trotzki há-de rachar
a cabeça ao vosso Trotzki
O nosso Mao há-de afogar
o vosso Mao no Yang tse
para que deixe de obstruir
o caminho da vitória
Erich Fried
100 Poemas sem Pátria
domingo, 19 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Gralhas, caça furtiva
Um bando de gralhas
sobre a escrita
cínicas como gavião
que lá das alturas
cativa indefeso perdigoto.
que procuram as gralhas:
alma redimida de palavra ferida
ou agasalho nos ramos frios do inverno?
Digo ao meu filho,
traz a caçadeira e os cartuchos de pólvora nobel
chumbo 8,
porque esta espécie de gralha maior não é
do que palavra tordo de papo ruivo.
retomo o antigo rito da caça
pela primeira luz da alva
camuflado na brancura do papel
a velha espingardada de canos paralelos
ao ombro
o cheiro da pólvora queimada entontece
já a caça foge da escrita
sobre a escrita
cínicas como gavião
que lá das alturas
cativa indefeso perdigoto.
que procuram as gralhas:
alma redimida de palavra ferida
ou agasalho nos ramos frios do inverno?
Digo ao meu filho,
traz a caçadeira e os cartuchos de pólvora nobel
chumbo 8,
porque esta espécie de gralha maior não é
do que palavra tordo de papo ruivo.
retomo o antigo rito da caça
pela primeira luz da alva
camuflado na brancura do papel
a velha espingardada de canos paralelos
ao ombro
o cheiro da pólvora queimada entontece
já a caça foge da escrita
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domingo, 21 de novembro de 2010

>Um pai natal à moda antiga, inventor de brinquedos de madeira, exausto de tantas viagens debaixo da neve, delega arte e o generoso ofício no filho. Parte de madrugada: no regresso, dias depois, só as renas e um capote. O filho, que adorava as árvores da floresta, repartia desde menino solidões, dúvidas e alegrias com um caracol. Inseparável amigo que transporta uma rara virtude: pensa, pensa devagar e bem. Certa manhã, o jovem leva as remas à clareira da floresta a beber a frescura do mundo, como sempre o seu pai fazia pelo mês de Maio. De repente, os animais suspendem o pasto, erguem a cabeça: no centro da clareira, aparece um capote forrado a pele de marta que agasalha uma menina de escassos dias de vida. A Menina é uma inesperada história de amizade, de reencontros, de subtis sentimentos que parecem não existir mais entre as pessoas. Uma história também de amor pelas árvores e por outros seres da floresta. A dado passo, uma dúvida sobressaltará o leitor: o que é feito da mãe do jovem pai natal?
ed. Caminho das Palavras
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o filho do pai natal
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
[romã]
Granada a clara, que seca roupa
ao luar, romã entreaberta
que sangra e chora
(pela boca da ferida) o seu poeta.
Jean Cocteau
ao luar, romã entreaberta
que sangra e chora
(pela boca da ferida) o seu poeta.
Jean Cocteau
sábado, 6 de novembro de 2010
Animal faminto
as palavras
o seu olhar silencioso
de animal faminto
sua leveza interior de árvore em repouso.
há palavras assim
e de algumas me fiz
amigo - sacio-lhes a fome.
a fome das palavras
é doce como um fruto.
o seu olhar silencioso
de animal faminto
sua leveza interior de árvore em repouso.
há palavras assim
e de algumas me fiz
amigo - sacio-lhes a fome.
a fome das palavras
é doce como um fruto.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
...ET VOILÀ
Un marin a quitté la mer
son bateau a quitté le port
et le roi a quitté la reine
un avare a quitté son or
… et voilà
Une veuve a quitté le deuil
une folle a quitté l'asile
et ton sourire a quitté mes lèvres
...et voilà
Tu me quitteras
tu me quitteras
tu me quiterras
tu me reviendras
tu m'épouseras
tu m'épouseras
Le couteau épouse la plaie
l'ar-en-ciel épouse la pluie
le sourise épouse les larmes
les caresses épousent les menaces
… et voilà
Et le feu épouse la glace
et la mort épouse la vie
comme la vie épouse l'amour
Tu m'epouseras
Tu m'epouseras
Tu me'epouseras.
Jacques Prévert
Un marin a quitté la mer
son bateau a quitté le port
et le roi a quitté la reine
un avare a quitté son or
… et voilà
Une veuve a quitté le deuil
une folle a quitté l'asile
et ton sourire a quitté mes lèvres
...et voilà
Tu me quitteras
tu me quitteras
tu me quiterras
tu me reviendras
tu m'épouseras
tu m'épouseras
Le couteau épouse la plaie
l'ar-en-ciel épouse la pluie
le sourise épouse les larmes
les caresses épousent les menaces
… et voilà
Et le feu épouse la glace
et la mort épouse la vie
comme la vie épouse l'amour
Tu m'epouseras
Tu m'epouseras
Tu me'epouseras.
Jacques Prévert
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
As mãos, a alma

A decrepitude atirou-os para o armazém do Farrapeiro de S. Vicente de Paulo. Eles que foram moda – a moda – chegavam ao fim. Nus e resignados, silenciosos como árvores. Como velhos sozinhos. Alguns amputados no corpo, todos eles vazios de alma. Personagens sem nome na aluvião do devoluto. Do que foi vida e, graças a generosidade arcaica (será caridade?), se liberta do lixo. De ser resíduo sólido. Os manequins aportaram ali, cediam uma réstia de alvura à obscuridade do lugar. Entre camas e televisores a preto e branco, entre cadeiras de rodas e brinquedos, enxergas e discos de vinil. Livros, os livros, silenciosos também como bicho-de-conta, encontram-se ao fundo, quase emparedados por enormes guarda-fatos expulsos de casas de harmonioso pé direito. E foi uma visita aos livros, cansados e com marca de posse, seja o primeiro tomo das Obras Escolhidas de Lenine ou as Reflexões sobre a Graça, de Charles Journet, que permitiu o inesperado encontro com a despojada família. O negócio fez-se no momento; no dia seguinte, os manequins iluminavam, com a sua tímida presença, o único espaço habitável da sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto – também ela, nessa altura, de alma magoada, entontecida pelo burburinho das pombas.
Resgatados da aluvião do devoluto, quedaram, contudo, no mesmo melancólico silêncio. O corpo é o lugar onde a “alma se exila” na sua passagem terrena, por isso os crentes vêem a morte como “dádiva” singular. Mas os manequins estavam mortos e de alma nunca fruíram – o seu corpo sempre foi corpo desabitado. De vida careciam, de suave luz interior: uma listra negra colada em redor dos ombros, pedaço de jornal a agasalhar a nudez, pingos de tinta como chuva colorida no rosto. A mão, as mãos, o gesto. A arte. E eis as distantes criaturas tocadas pelas paixões da alma. De súbito, cheias de indecência e de pudor. Sedutoras e fugidias como seres marinhos. Dóceis como palavras humildes. Esta prodigiosa transmutação (o quase-lixo vira obra de arte) deve-se a Jaime Isidoro, Armando Alves, Acácio Carvalho, Alberto Péssimo, Fernando Lanhas, José Emídio, José Rodrigues, Manuela Bronze e Roberto Machado. Foram eles, num gesto solidário a vários níveis, que reinventaram a alma, múltipla e a cores. Ao grupo junta-se outro nome: Augusto Baptista. Para que dúvidas não restem, com engenho e rigor, fixou alguns momentos do momento criativo. E, mais do que isso, as suas fotografias mostram-nos o diálogo do criador e da criatura, da criatura e do criador. Idioma pleno de silêncios, mas límpido, perceptível como árvore florida. A mão, as mãos, muitas mãos: eis os manequins transfigurados. Eis os manequins com alma, à procura de novo abrigo – não podia encerrar aqui a inesperada aventura.
As mãos, a alma termina, no dia 23 de Outubro, com o leilão das obras de arte. Os manequins, já se disse, saíram da aluvião do devoluto: merecem pois um lugar limpo, sem mácula. A verba proveniente da iniciativa será aplicada nas obras da segunda fase da requalificação do edifício-sede da nossa Instituição, que esperamos iniciar em breve.
Antigo dirigente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Jaime Isidoro aceitou sem a mais leve das hesitações participar, graciosamente, como todos os restantes artistas, neste projecto. Deu alma, bem luminosa, a um dos manequins. Entretanto, partiu. Está presente a obra, ele por certo não virá. As mãos, a alma é também tributo, uma sentida homenagem a Jaime Isidoro. De pequenas dádivas de constroem os grandes sonhos.
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