domingo, 13 de dezembro de 2009

Água ardente

fogueira
de giestas: escrevi
noite
crepita o sono do cão
no dorso do lume

*
o cão acorda, o pastor
procura (:escrevo garrafa)
garrafa só é intransitiva
aguardente
o pastor bebe
mastiga o pão devagar
quem acordou o pão?


Transumância, ed. Campos da Letras

sábado, 5 de dezembro de 2009

Aboiz

Há palavras assim, plenas de sonoridade e elegância camilianas, que surgem imprevistas. “Nunca é tarde para ofertar aos mortos a turibulação da nossa saudade”. Tomem nota: turibulação. Encontro o vocábulo no jocoso Seringador, para 2010, que turibula com o devido respeito os seus colaboradores. Neste caso, o metafórico incenso é queimado em honra de Arlindo Pinto, comandante do Posto da GNR de Felgueiras. “Poeta que durante muitos anos tomou como sua a voz do povo, cantando-a com verdadeira mestria, em poemas de brandura e doce encanto”. Tomem nota: a um poeta que parte nenhuma turibulação se afigura excessiva.
Todos os anos, quando assoma o mês de Dezembro, compro O Seringador. E faço-o em nome da terra, de uma remota memória da terra. Às vezes, como se viu, uma ou outra palavra cai na aboiz e acaba, enfim, ela por nos prender. Mas o que procuro é a terra, os suaves ciclos na sua matriz antiga: a época certa para as enxertias, o mês ideal para as sementeiras de ervilhas-de-cheiro ou abóbora-menina. Mas o clima troca-nos as voltas: reescreve, de forma brutal, a sabedoria milenar, desmente aqui e ali a experiência do Seringador, que se publica faz agora 145 anos. Há poucos dias, vi flor a despontar nas macieiras e ameixoeiras, quando nem tempo ainda é da magnólia florir; as hidranjas apresentam os primeiros rebentos, o que costuma a acontecer rente à Primavera; ainda não canta a tesoura de poda e brotam gomos nas videiras. Vejo lírios floridos. Tomem nota do que vos diz este amigo enquanto turibula a natureza: uma silenciosa e perigosa revolução se passa no íntimo da terra.

sábado, 21 de novembro de 2009

Manhã

o homem comeu dióspiros
ficou com alma de pássaro. voa
como os pardais contra o vento
à procura de abrigo enxuto
na manhã.o homem atravessa
o temporal: vê árvores devastadas
no seu bramido assustado. o homem agora sabe
é de solar doçura a alma de pássaro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O Muro caiu

Espanta-se. Os mesmos rostos a assomar à janela, o mesmo brilho viscoso do lajedo, a velha gata no alto da manhã lambendo o sol. Estranho, diz o homem. Ninguém o ouve, ninguém o conhece. Olha as fachadas, como turista atento à arquitectura de bairro proletário. Que procura? Talvez uma placa que lhe indique a casa onde nasceu. Mas na Rua das Musas não existe esse pequeno rectângulo de mármore para atear a memória. E o homem, por momentos, estanca na dúvida. Será aqui?
Desce até à esquina, ergue a cabeça: confirma. Sobe devagar o empedrado de granito, onde as “lágrimas” fabricavam “lama”. E um brusco desassossego emociona-o: a casa ainda existe? Pára. É aqui, só pode ser aqui. Hesita, suspende o gesto, a mão fechada. Recorda versos alheios, mas não a acha na memória; cita a ideia: feliz quem encontra a porta e chora diante dela. O braço avança, os nós dos dedos ressoam na madeira, uma vez, duas vezes. Silêncio. Ouve passos,
Quem é?, voz indecisa, receosa.
Sou eu.
Que deseja?
Eu procuro a casa onde nasci...
Enganou-se no número.
Silêncio. Os passos distanciam-se, arrastam murmúrios. O homem volta a bater, uma vez, duas vezes,
Abra, por favor.
Os passos de volta, mais rápidos, impelidos talvez pela ira. A porta abre bruscamente. Silêncio. O homem sorri, estende os braços, como se quisesse medir a largura da casa, a largura do mundo,
João... Que fazes aqui, João?!
Sabe o meu nome!
“Era uma vez um rapaz chamado João que vivia ...»
«... em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia aninhada perto do Muro...», continuou o João. Abraçam-se, desmedida ternura como sempre acontece quando alguém descobre uma personagem fora do livro.
Entre, a casa é sua. Entre, sempre foi sua.
A porta encerrou devagar contra a luz da manhã. Os passos por dentro da casa, por dentro da úmbria, por dentro da memória, sobem estrepitosas escadas de madeira. Felizes, o autor e a personagem.
Sente-se, por favor: sente-se.
O homem senta-se, na única cadeira da sala vazia, imersa na claridade da manhã que entra pelas janelas. No alto da parede, um letreiro (esse sim, sabia-o de cor) prende-lhe os olhos: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”.
Esteve algum tempo afixado na fachada, mas os vizinhos apresentaram queixa na Câmara Municipal...
Queixa!
Sim, uma queixa, um abaixo-assinado. E foram à Assembleia Municipal expor de viva voz o caso. Além de escrito a vermelho, alegaram, o letreiro dava má fama à rua. Que, apesar do nome, é de gente séria e honesta...
E os da Câmara?
Mandaram dois funcionários com uma escada retirar “esse atentado à decência». Acudi a tempo, e guardei-o. É tudo o que tenho, é o meu tesouro. Quando, há bocado, ouvi bater à porta, julguei que eram eles. Acredite, fiquei com medo.
Medo. Tu tens medo, João!
O Muro caiu. Andamos todos espantados de existir.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Pré-história

Cansado de humanidade, ganhou pêlo. Abjurou a marcha bípede, subiu às árvores do bosque: comeu frutos e enxotou pássaros. A família pôs anúncios nos jornais. Dava alvíssaras a quem a informasse do paradeiro do homem. E ninguém até hoje descobriu o professor de Pré-história, com horário incompleto.


O salto

Sou o presidente das minhas ideias. Avisa o homem do saco de cabedal. Oferecem-lhe cerveja fresca como chocolate para cativar criança. Acabaram os passaportes para o paraíso. A partir de agora, quem quiser dar o salto terá de pagar ao passador. Ao passa dor. Sujeita-se, como outrora, à exploração dos contrabandistas da penúria. Os outros murmuram. Um deles, tímido, pergunta: quanto poderá custar a passagem. Sorri o homem do saco de cabedal. Vinho para todos, pago eu! É espantoso como esta gente apalpa a metafísica.


Ofício

Nasceu com um defeito na sinistra. Nos dias de feira, expunha a deficiência e o brilho das moedas tombava na boina preta. O homem, o homem sabia meio ofício divino: cantava missa, sem ser tonsurado. E pertencia-lhe um olhar lancinante e triste, próprio de pregador que acirra os prantos femininos. Um dia, porém, o império estremeceu: outro pedinte arribou à feira. Nada a fazer, teriam de repartir o mercado. O outro desconhecia o ofício divino. Mas ostentava uma perna roxa de chagas e pus, sobrevoada por bando voraz de moscas. Olharam-se com ódio sombrio. Faz queixa à guarda! Atiçou o da perna roxa. Optou pela legalidade. Na Fazenda Pública exigiu ser colectado. Eu pago os impostos, mas tirem-me de lá o leproso. Riram, os das Finanças: Tu estás isento de impostos, fazes parte do clero. Há dias, alguém o viu refastelado numa cadeira de baloiço, vestindo um bom fato - afagava com a mão esquerda um alentado gato persa.

In O Homem do Saco de Cabebal, ed. Campo das Letras

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

gatos

gatos cheios de luz
a saltitar na manhã
parecem borboletas
o outono traz esta generosidade
de luz e outros frutos
também eles maduros de claridade.

sábado, 24 de outubro de 2009



Pirilampo



Uma faúlha de Sol
a esvoaçar na noite

não conheço paixão
mais luminosa