A visita a uma casa alfarrabista do Porto abriu, subitamente, o portão do bosque. Um remoto bosque harmonioso de árvores distintas e outras, agora, vulgaríssimas, que viajaram de longe para adornar a paisagem portuguesa. Procurava algo sobre José Marques Loureiro, homem que não precisava de abraçar as árvores para lhe saber a idade, e saí da Livraria Académica, de Nuno Canavez, sem pagar um tostão, com quatro volumes de Jornal do Horticultura Prática, “premiado na Exposição Hortícola de Lisboa de 1870, na de Gand de 1872, e na de Lyon de 1875”. Marques Loureiro criou e dirigiu o Horto da Virtudes, na cidade do Porto, que havia de povoar de plantas e árvores, marcadas pelo exotismo e raridade, os jardins do Norte de Portugal e alguns da vizinhas da Galiza. E fundaria também o jornal, que tinha Duarte de Oliveira como redactor, para divulgar os produtos da respeitada casa e aconselhar a amadores e profissionais as melhores técnicas de cultivo. Lentamente, o jardineiro e horticultor trazia claridade, novos sabores à sombria agricultura portuguesa e, não menos importante, outras tonalidades e beleza aos jardins, bosques e parques públicos.
Marques Loureiro testava as espécies nos viveiros e só depois as lançava no mercado. Tornou o Porto a pátria adoptiva da camélia ( “a rainha do Inverno”, como ele lhe chamava), difundiu em Portugal muitas outras espécies como, só para dar um exemplo, a erva-das-sete-sangrias: para quem não saiba, é o comum diospireiro, que ilumina as manhãs de Outono com seus frutos de fogo. Mestre na arte de enxertia, o cosmopolita jardineiro das Virtudes, sempre atento às novidades dos principais hortos europeus, através do seu jornal, verdadeiro manual de bem granjear a terra, ensinou um pouco de tudo. Até a aparentemente simples tarefa de capar o melão. Fruto de primeira ordem, dizia Loureiro aos seus leitores, trazido para o Ocidente “depois das primeiras expedições dos romanos contra a Pérsia, onde se encontra abundantemente no estado selvagem”. O melão carece de cultura cuidada, de regras no momento certo, e da geométrica e indispensável capação por via de tolher o avanço sôfrego das guias . Caprichoso, o melão. “Não admite meio termo, pode ser um verdadeiro manjar dos deuses ou um fruto detestável, que nem ao próprio diabo se poderá oferecer”. O Horto das Virtudes e o seu proprietário, um dos desses homens modernos num tempo arcaico que o Porto teve noutros tempos, ajudaram a mudar a agricultura portuguesa, diversificaram a nossa floresta, encheram os jardins, privados e públicos, de árvores de nome estranho, como araucaria, Ácer ou o bíblico sicômoro. Pergunta o leitor: a que propósito aparece aqui, desgarrada, esta prosa? Quem conhece os ciclos da natureza, sabe que começa agora a época da enxertia (garfo, mergulhia, borbulha, etc.) e do plantio de novas árvores, que aproveitam o repouso da terra para estender raiz. E plantar um árvore é bem mais empolgante do que escrever um livro.
sábado, 10 de outubro de 2009
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Burburinho
burburinho de asas rente à figueira
dos grandes figos pretos. de novo a fome apátrida das aves
por outubro dentro. Falo à mãe de estrigas de linho
como se duas palavras antigas lhe devolvessem a juventude.
e de esquecidos homem a cavalo, passavam pela alva rumo à feira de s. Miguel nas terras de basto. o cheiro a mosto e sua secreta alegriaque havíamos de descobrir mais tarde. a felicidade dos cães no rasto dos montes. Que palavras para restituir a marcha ao caçador emaranhado na trôpega quietude.
o burburinho de asas sobre a figueira
que aves são essas, meu filho.
dos grandes figos pretos. de novo a fome apátrida das aves
por outubro dentro. Falo à mãe de estrigas de linho
como se duas palavras antigas lhe devolvessem a juventude.
e de esquecidos homem a cavalo, passavam pela alva rumo à feira de s. Miguel nas terras de basto. o cheiro a mosto e sua secreta alegriaque havíamos de descobrir mais tarde. a felicidade dos cães no rasto dos montes. Que palavras para restituir a marcha ao caçador emaranhado na trôpega quietude.
o burburinho de asas sobre a figueira
que aves são essas, meu filho.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
A lua, um lírio
dá-me uma rima
porque acabou o verão
dá-me uma rima
o sorriso, uma rã e um limão
dá-me uma rima
já acabou o verão
dou-te meu coração furtivo
a lua,um lírio, uma canção
dá-me uma rima
já me sinto ledo e cativo
e não queria e não queria
porque acabou o verão
dá-me uma rima
o sorriso, uma rã e um limão
dá-me uma rima
já acabou o verão
dou-te meu coração furtivo
a lua,um lírio, uma canção
dá-me uma rima
já me sinto ledo e cativo
e não queria e não queria
sábado, 26 de setembro de 2009
[Sadismos elegantes]
10 de Abril [1946]
Os intelectuais que não estão de acordo
com o Partido Comunista
quanto à questão da liberdade
deveriam perguntar a si próprios
o que fariam dessa liberdade
com que tanto se preocupam. E então
veriam - afastadas as preguiças,
os interesses inconfessados de
cada um (vida cómoda, devaneio,
sadismos elegantes) - que não existe
caso em que dêem uma resposta
diferente da resposta colectiva do PC.
Cesare Pavese
Ofício de Viver
Os intelectuais que não estão de acordo
com o Partido Comunista
quanto à questão da liberdade
deveriam perguntar a si próprios
o que fariam dessa liberdade
com que tanto se preocupam. E então
veriam - afastadas as preguiças,
os interesses inconfessados de
cada um (vida cómoda, devaneio,
sadismos elegantes) - que não existe
caso em que dêem uma resposta
diferente da resposta colectiva do PC.
Cesare Pavese
Ofício de Viver
sábado, 19 de setembro de 2009
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Rústica mas não muito
Um riacho um caminho incerto
de cascalho tufo de urze
tudo disposto para a narração
ou o desvio. Ou nada estava
aqui à espera da forma
poética.
Os cães aglomeram-se olhando
-me ou não me procuram. Para as
encostas entregues à vida rústica
o serem vistas é serem minhas.
O alheio espia-me para ser
poético?
Fiama Hasse Pais Brandão
de cascalho tufo de urze
tudo disposto para a narração
ou o desvio. Ou nada estava
aqui à espera da forma
poética.
Os cães aglomeram-se olhando
-me ou não me procuram. Para as
encostas entregues à vida rústica
o serem vistas é serem minhas.
O alheio espia-me para ser
poético?
Fiama Hasse Pais Brandão
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Tu conheces as colinas
De repente, tu estás na página, dentro do livro. Como se fosses personagem. Conheces as colinas. O espanto tolhe-te! Alguém te roubou os sonhos, sabia teus segredos. Coisas simples: como o menino que sonhava ter um canivete. Vasculhas a memória, lembras-te do autor. E o livro? Em que livro dorme o menino do canivete para, como os homens da aldeia, afiar a melancolia? Terras do Meu País, A Lua e as Fogueiras, Fogo Grande? Pouco importa. Há anos, tu entraste na página – e ficaste. Como o menino, ao lado do menino. Não adianta perturbar o silêncio do livro que te levou à terra de Pavese. E conhecias o rumor das colinas, o sorriso cúmplice das raparigas, o cheiro dos fenos curtidos pelo sol de Agosto, os homens bruscos, violentos, que encostados aos muros fumavam devagar o silêncio da manhã.
Alguns livros são assim: nunca mais voltarás a eles, e eles acompanham a tua vida. A tua vida toda. Não adianta procurar. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. Segredo, um segredo só teu, que ninguém roubará. Nem mesmo tu. Temes, tu temes, voltar ao livro. Pode ser o desencanto, súbito desengano: como se encontrasses em lugar nenhum a mulher que amaste, verdadeiramente amaste, há muitos anos. O encantamento amoroso, que entrelaça a juventude, é irrepetível. O autor do livro, que tu temes abrir, foi mordido por esse estranho sentimento. E procurou, gesto supérfluo, o resgate do fascínio longínquo em todas as mulheres que sabiam a mar, ou traziam o cheiro suave dos fenos no corpo – ou eram apenas simples mulheres.
Outros livros vieram, outros livros, por certo, aguardam a tua caminhada silenciosa na página. Agora talvez não reconheças as colinas. Compraste e perdeste, eu sei, a pequena navalha, uma Opinel nº 3, cabo de madeira. Com ela, afinal, não aguçaste a vara de salgueiro verde, como os homens da aldeia onde nunca foste: escreveste, isso sim, uma palavra (um nome, talvez) no tronco do plátano, junto ao rio. A árvore cresceu, a generosidade do tempo encobriu a cicatriz. E a palavra, tu sabes, a palavra fez-se seiva, terá desaguado límpida no coração do plátano. A palavra, essa palavra de paixão quase clandestina, deixou de te pertencer. Como todas as palavras que escreveste sem endereço definido.
Esquece o menino na página. Procura uma palavra nova. Harmoniosa e precisa. Exacta. De fogo e rebeldia. Que te enrede, te sobressalte outra vez. Esquece as mulheres que sabiam a mar, e as que traziam os cheiros dos fenos fingidos no corpo. Procura o livro. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. É uma parte distante da tua vida que resguardaste da luz, como se tivesses rasurado o rosto de uma fotografia a preto e branco. Entra agora na página, nesta página que escreves lentamente. O rumor das colinas, escuta, o harmonioso rumor das colinas. Persiste na escrita, como se voltasses a golpear o escorregadio plátano, rente ao rio. Não é, nunca será, gesto escuso a escrita que um dia se transmuta em seiva. Palavras viageiras, alcançam o ponto mais alto da árvore, apoderam-se da doçura dos frutos – voam depois, luminosas, no coração das aves.
Alguns livros são assim: nunca mais voltarás a eles, e eles acompanham a tua vida. A tua vida toda. Não adianta procurar. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. Segredo, um segredo só teu, que ninguém roubará. Nem mesmo tu. Temes, tu temes, voltar ao livro. Pode ser o desencanto, súbito desengano: como se encontrasses em lugar nenhum a mulher que amaste, verdadeiramente amaste, há muitos anos. O encantamento amoroso, que entrelaça a juventude, é irrepetível. O autor do livro, que tu temes abrir, foi mordido por esse estranho sentimento. E procurou, gesto supérfluo, o resgate do fascínio longínquo em todas as mulheres que sabiam a mar, ou traziam o cheiro suave dos fenos no corpo – ou eram apenas simples mulheres.
Outros livros vieram, outros livros, por certo, aguardam a tua caminhada silenciosa na página. Agora talvez não reconheças as colinas. Compraste e perdeste, eu sei, a pequena navalha, uma Opinel nº 3, cabo de madeira. Com ela, afinal, não aguçaste a vara de salgueiro verde, como os homens da aldeia onde nunca foste: escreveste, isso sim, uma palavra (um nome, talvez) no tronco do plátano, junto ao rio. A árvore cresceu, a generosidade do tempo encobriu a cicatriz. E a palavra, tu sabes, a palavra fez-se seiva, terá desaguado límpida no coração do plátano. A palavra, essa palavra de paixão quase clandestina, deixou de te pertencer. Como todas as palavras que escreveste sem endereço definido.
Esquece o menino na página. Procura uma palavra nova. Harmoniosa e precisa. Exacta. De fogo e rebeldia. Que te enrede, te sobressalte outra vez. Esquece as mulheres que sabiam a mar, e as que traziam os cheiros dos fenos fingidos no corpo. Procura o livro. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. É uma parte distante da tua vida que resguardaste da luz, como se tivesses rasurado o rosto de uma fotografia a preto e branco. Entra agora na página, nesta página que escreves lentamente. O rumor das colinas, escuta, o harmonioso rumor das colinas. Persiste na escrita, como se voltasses a golpear o escorregadio plátano, rente ao rio. Não é, nunca será, gesto escuso a escrita que um dia se transmuta em seiva. Palavras viageiras, alcançam o ponto mais alto da árvore, apoderam-se da doçura dos frutos – voam depois, luminosas, no coração das aves.
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