10 de Abril [1946]
Os intelectuais que não estão de acordo
com o Partido Comunista
quanto à questão da liberdade
deveriam perguntar a si próprios
o que fariam dessa liberdade
com que tanto se preocupam. E então
veriam - afastadas as preguiças,
os interesses inconfessados de
cada um (vida cómoda, devaneio,
sadismos elegantes) - que não existe
caso em que dêem uma resposta
diferente da resposta colectiva do PC.
Cesare Pavese
Ofício de Viver
sábado, 26 de setembro de 2009
sábado, 19 de setembro de 2009
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Rústica mas não muito
Um riacho um caminho incerto
de cascalho tufo de urze
tudo disposto para a narração
ou o desvio. Ou nada estava
aqui à espera da forma
poética.
Os cães aglomeram-se olhando
-me ou não me procuram. Para as
encostas entregues à vida rústica
o serem vistas é serem minhas.
O alheio espia-me para ser
poético?
Fiama Hasse Pais Brandão
de cascalho tufo de urze
tudo disposto para a narração
ou o desvio. Ou nada estava
aqui à espera da forma
poética.
Os cães aglomeram-se olhando
-me ou não me procuram. Para as
encostas entregues à vida rústica
o serem vistas é serem minhas.
O alheio espia-me para ser
poético?
Fiama Hasse Pais Brandão
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Tu conheces as colinas
De repente, tu estás na página, dentro do livro. Como se fosses personagem. Conheces as colinas. O espanto tolhe-te! Alguém te roubou os sonhos, sabia teus segredos. Coisas simples: como o menino que sonhava ter um canivete. Vasculhas a memória, lembras-te do autor. E o livro? Em que livro dorme o menino do canivete para, como os homens da aldeia, afiar a melancolia? Terras do Meu País, A Lua e as Fogueiras, Fogo Grande? Pouco importa. Há anos, tu entraste na página – e ficaste. Como o menino, ao lado do menino. Não adianta perturbar o silêncio do livro que te levou à terra de Pavese. E conhecias o rumor das colinas, o sorriso cúmplice das raparigas, o cheiro dos fenos curtidos pelo sol de Agosto, os homens bruscos, violentos, que encostados aos muros fumavam devagar o silêncio da manhã.
Alguns livros são assim: nunca mais voltarás a eles, e eles acompanham a tua vida. A tua vida toda. Não adianta procurar. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. Segredo, um segredo só teu, que ninguém roubará. Nem mesmo tu. Temes, tu temes, voltar ao livro. Pode ser o desencanto, súbito desengano: como se encontrasses em lugar nenhum a mulher que amaste, verdadeiramente amaste, há muitos anos. O encantamento amoroso, que entrelaça a juventude, é irrepetível. O autor do livro, que tu temes abrir, foi mordido por esse estranho sentimento. E procurou, gesto supérfluo, o resgate do fascínio longínquo em todas as mulheres que sabiam a mar, ou traziam o cheiro suave dos fenos no corpo – ou eram apenas simples mulheres.
Outros livros vieram, outros livros, por certo, aguardam a tua caminhada silenciosa na página. Agora talvez não reconheças as colinas. Compraste e perdeste, eu sei, a pequena navalha, uma Opinel nº 3, cabo de madeira. Com ela, afinal, não aguçaste a vara de salgueiro verde, como os homens da aldeia onde nunca foste: escreveste, isso sim, uma palavra (um nome, talvez) no tronco do plátano, junto ao rio. A árvore cresceu, a generosidade do tempo encobriu a cicatriz. E a palavra, tu sabes, a palavra fez-se seiva, terá desaguado límpida no coração do plátano. A palavra, essa palavra de paixão quase clandestina, deixou de te pertencer. Como todas as palavras que escreveste sem endereço definido.
Esquece o menino na página. Procura uma palavra nova. Harmoniosa e precisa. Exacta. De fogo e rebeldia. Que te enrede, te sobressalte outra vez. Esquece as mulheres que sabiam a mar, e as que traziam os cheiros dos fenos fingidos no corpo. Procura o livro. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. É uma parte distante da tua vida que resguardaste da luz, como se tivesses rasurado o rosto de uma fotografia a preto e branco. Entra agora na página, nesta página que escreves lentamente. O rumor das colinas, escuta, o harmonioso rumor das colinas. Persiste na escrita, como se voltasses a golpear o escorregadio plátano, rente ao rio. Não é, nunca será, gesto escuso a escrita que um dia se transmuta em seiva. Palavras viageiras, alcançam o ponto mais alto da árvore, apoderam-se da doçura dos frutos – voam depois, luminosas, no coração das aves.
Alguns livros são assim: nunca mais voltarás a eles, e eles acompanham a tua vida. A tua vida toda. Não adianta procurar. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. Segredo, um segredo só teu, que ninguém roubará. Nem mesmo tu. Temes, tu temes, voltar ao livro. Pode ser o desencanto, súbito desengano: como se encontrasses em lugar nenhum a mulher que amaste, verdadeiramente amaste, há muitos anos. O encantamento amoroso, que entrelaça a juventude, é irrepetível. O autor do livro, que tu temes abrir, foi mordido por esse estranho sentimento. E procurou, gesto supérfluo, o resgate do fascínio longínquo em todas as mulheres que sabiam a mar, ou traziam o cheiro suave dos fenos no corpo – ou eram apenas simples mulheres.
Outros livros vieram, outros livros, por certo, aguardam a tua caminhada silenciosa na página. Agora talvez não reconheças as colinas. Compraste e perdeste, eu sei, a pequena navalha, uma Opinel nº 3, cabo de madeira. Com ela, afinal, não aguçaste a vara de salgueiro verde, como os homens da aldeia onde nunca foste: escreveste, isso sim, uma palavra (um nome, talvez) no tronco do plátano, junto ao rio. A árvore cresceu, a generosidade do tempo encobriu a cicatriz. E a palavra, tu sabes, a palavra fez-se seiva, terá desaguado límpida no coração do plátano. A palavra, essa palavra de paixão quase clandestina, deixou de te pertencer. Como todas as palavras que escreveste sem endereço definido.
Esquece o menino na página. Procura uma palavra nova. Harmoniosa e precisa. Exacta. De fogo e rebeldia. Que te enrede, te sobressalte outra vez. Esquece as mulheres que sabiam a mar, e as que traziam os cheiros dos fenos fingidos no corpo. Procura o livro. Tu sabes onde está guardado, sempre soubeste. É uma parte distante da tua vida que resguardaste da luz, como se tivesses rasurado o rosto de uma fotografia a preto e branco. Entra agora na página, nesta página que escreves lentamente. O rumor das colinas, escuta, o harmonioso rumor das colinas. Persiste na escrita, como se voltasses a golpear o escorregadio plátano, rente ao rio. Não é, nunca será, gesto escuso a escrita que um dia se transmuta em seiva. Palavras viageiras, alcançam o ponto mais alto da árvore, apoderam-se da doçura dos frutos – voam depois, luminosas, no coração das aves.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Viagens
em abril
as flores nascem
no peito das mulheres
as viagens são vermelhas
os desejos são vermelhos
e depois
pelos espelhos
(quebrados) fogem rostos
estranhos de espanto
as flores nascem
no peito das mulheres
as viagens são vermelhas
os desejos são vermelhos
e depois
pelos espelhos
(quebrados) fogem rostos
estranhos de espanto
Etiquetas:
"palavras antigas",
abril
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Canta o lírio
canta o gaio
deve ser o maio
canta o lírio
deve ser um sonho
canta o cuco
é primavera
canta a pedra
deve ser o sono
Canta o melro
deve ser verão
canta o garrafão
deve ser a fome
canta a perdiz
deve ser o fim do dia
canta o chafariz
deve ser paixão
canta a coruja
deve ser a noite
canta a abóbora-menina
deve ser poesia
canta andorinha
deve ser saudade
deve ser o maio
canta o lírio
deve ser um sonho
canta o cuco
é primavera
canta a pedra
deve ser o sono
Canta o melro
deve ser verão
canta o garrafão
deve ser a fome
canta a perdiz
deve ser o fim do dia
canta o chafariz
deve ser paixão
canta a coruja
deve ser a noite
canta a abóbora-menina
deve ser poesia
canta andorinha
deve ser saudade
Etiquetas:
Devocionário para as crianças
sábado, 22 de agosto de 2009
Pauis de tenra erva
aboim
agora às trutas no ribeirinho
até várzea cova: havia um cão
grande e manso só com três patas, junto à igreja.
as trutas nos luminosos anos setenta
no ribeirinho de aboim eram pequena
mas em abundância, só pelo julho
nos açudes silenciosos o saltão a patinar na água
iludia trutas de palmo, às vezes maiores.
dizem-me (desagradável voltar aos lugares
onde se foi feliz) dizem-me que agora é um imenso chavascal
os açudes se alagaram, sôfrego silvedo cobriu o sussurro da água
campos, caminhos em redor.
o padre de várzea cova fazia exorcismos
e a imagem incompleta do cão grande
parecia (os verdes anos têm esses imaginosos pensamentos)
indiciar o árduo ofício do sacerdote de acudir
aos fiéis atormentados. nesse tempo, os campos junto ao ribeirinho
estavam cultivados, pauis de tenra erva que o gado
pastava pela tardinha para fugir à mosca. E havia as filhas
do matalobos que nos espiavam pelo postigo do moinho
naquele lugar ermo, cercado por carvalhais.
em redor de Aboim nos montes que nunca foram maninhos
há enormes ventoinhas e os felizes emigrantes. agora o agosto
o agosto que dá uso a caminhos velhos.
agora às trutas no ribeirinho
até várzea cova: havia um cão
grande e manso só com três patas, junto à igreja.
as trutas nos luminosos anos setenta
no ribeirinho de aboim eram pequena
mas em abundância, só pelo julho
nos açudes silenciosos o saltão a patinar na água
iludia trutas de palmo, às vezes maiores.
dizem-me (desagradável voltar aos lugares
onde se foi feliz) dizem-me que agora é um imenso chavascal
os açudes se alagaram, sôfrego silvedo cobriu o sussurro da água
campos, caminhos em redor.
o padre de várzea cova fazia exorcismos
e a imagem incompleta do cão grande
parecia (os verdes anos têm esses imaginosos pensamentos)
indiciar o árduo ofício do sacerdote de acudir
aos fiéis atormentados. nesse tempo, os campos junto ao ribeirinho
estavam cultivados, pauis de tenra erva que o gado
pastava pela tardinha para fugir à mosca. E havia as filhas
do matalobos que nos espiavam pelo postigo do moinho
naquele lugar ermo, cercado por carvalhais.
em redor de Aboim nos montes que nunca foram maninhos
há enormes ventoinhas e os felizes emigrantes. agora o agosto
o agosto que dá uso a caminhos velhos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)