quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Rimas infantis

achei uma rima
para o meu gato
leve como uma crina
não é bicho do mato
nem novelo de lã
nem dorme no guarda-fato
e acorda pela manhã

achei uma rima
para o meu gato
redonda tangerina
menina sem sapato
se agora ta contar
que será do meu gato
é bem capaz de amuar
pela rima não ser rato.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Água doce

agora o agosto, frágil libelinha
amores de água doce
como as palavras cabisbaixas entrando no milheiral
o esquecimento do voo dos pombos bravos
outrora o agosto: um cacho de uvas roubado
a mãe no silêncio lavado da cozinha
repouso breve no declínio da tarde. a mãe
só a mãe nos aguardava com a tisana
de ternura fresca

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Da alegria sazonal

o verão antigo
não cheirava a sargaço
havia libelinhas maçãs bravo de esmolfe ainda verdes
água limpa, a furiosa paixão pelo tangível
versos do ramos rosa: estou vivo e escrevo sol
muita cerveja na solidão nocturna
agora o verão. vejo os patos bravos à tardinha
para que exílio os leva seu geométrico voo?
e o rumor do mar lá ao fundo
dizia: mãe, eu vou com as aves
porque as palavras do Eugénio sempre deixam marca
como nódoa de pêssego na camisa de domingo
que desesperava toda a mulher
e íamos à festa a aboim
passávamos a cruz de mós, o silêncio
dos carvalhais emboscados na noite
íamos a aboim pelo alegria de caminhar
no labirinto da noite, os carros dos emigrantes
que nos atiravam para as bermas e o pó
a emaranhar-se no cabelo. no verão antigo
fumávamos cigarros, só cigarros
cinco quilómetros sempre a subir
pela estrada de terra batida e eis o esplendor de aboim
no cume da serra canhestro conjunto musical a animar o povo
da alegria sazonal
como por essas bandas nada se abichava
bebia-se vinho e cerveja na infusa três colheres
de açúcar amarelo. o silêncio já orvalhado dos carvalhais
e os automóveis incendiando a escuridão. no verão
antigo procurávamos a felicidade nos sítios mais improváveis.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Porto em Agosto

agora o verão
enquanto não chega o calor
bebamos a mágoa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um de agosto

Agora o verão
e já o inverno chega
um de agosto início do inverno
segundo os antigos: e bebiam aguardente
na manhã desse dia para afastar frios imaginários
agora o verão
na sombra das palavras
é agosto, gesto remoto: o fogo
da aguardente em memória
da sabedoria dos velhos.
tu não sabes
agora é verão no inverno

domingo, 26 de julho de 2009

Sul

sem o canto das cigarras
não é verão.

sábado, 25 de julho de 2009

Osso de ave

quando dizes lobo
a noite estremece, a tua voz
submersa
como osso de ave
restos de folhas e desejo
no coração do bosque.
o bosque da magnólia
branca que convoco
quando dizes lobo
e os caminhos velhos
iluminados pelo medo
do lume das bruxas.
tu sabes,
escrever com a memória
é amargo ofício.