segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um de agosto

Agora o verão
e já o inverno chega
um de agosto início do inverno
segundo os antigos: e bebiam aguardente
na manhã desse dia para afastar frios imaginários
agora o verão
na sombra das palavras
é agosto, gesto remoto: o fogo
da aguardente em memória
da sabedoria dos velhos.
tu não sabes
agora é verão no inverno

domingo, 26 de julho de 2009

Sul

sem o canto das cigarras
não é verão.

sábado, 25 de julho de 2009

Osso de ave

quando dizes lobo
a noite estremece, a tua voz
submersa
como osso de ave
restos de folhas e desejo
no coração do bosque.
o bosque da magnólia
branca que convoco
quando dizes lobo
e os caminhos velhos
iluminados pelo medo
do lume das bruxas.
tu sabes,
escrever com a memória
é amargo ofício.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ainda os pombos bravos

tu não sabes, o voo dos pombos
bravos é determinado, a mesma frieza
de manhã de dezembro. mas agora o verão
da dança insana da ventania
folhas ainda de plátano na rua
como palavras vazias
agora o verão
tu não sabes
vilarinho de negrões
viade de passagem outra vez de passagem
de súbito o povo de fiães do rio
e um nome límpido rompe a serenidade da tarde
bento gonçalves
memória redimida
o facho da utopia levantado
renascido numa casa humilde
na discreta aldeia
a bárbara morte no tarrafal
tão longe da sereníssina luz
que ilumina os carvalhais

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ver o mar

muito sargaço na areia e ninguém o apanha
como na subsistente agricultura
lavoura de fome, medos, chuvas frias
sem concertina, sem canto ao desafio
talvez as mulheres de a-ver-o-mar
já não sejam batidas pelos seus homens
dramas marinhos arrastados na onda do tempo
o sargaço na areia branca: a manchar o estio
ou a açular a memória?
de repente os pombos bravos num voo
cada vez mais alto
dor antiga que te inquieta

terça-feira, 14 de julho de 2009

Na manhã fria os pombos bravos

na manhã fria os pombos bravos
é imagem para sempre
depois do voo súbito, halo
de silêncio no pinhal: só o estalido
do gelo trilhado, só a dor antiga e os cães
os cães no rasto, pai.

agora o verão
as palavras em redor da magnólia
dou-lhes água afago-as
como perdigueiros tristes
e nenhuma levanto da terra
são palavras andarilhas
vieram de maio cheiram a ervas bravas do rio

domingo, 12 de julho de 2009

Os pombos bravos

quando dizes lobo
retomo a grafia da terra
afectos caídos nas toalhas de linho
e os cães, sei os nomes
vejo-os a seguir o rasto
pai, olhe os cães
no frio da manhã os pombos bravos
e eu sonhava um dia ter também caçadeira
para provar o meu pai que os pombos voavam a distância de tiro
chumbo cinco, talvez, pólvora nobel
a ave caindo redonda com uma maçã
no chavascal, esquartejada
em breves segundos de rosnar e sangue
cão de coelho despreza caça de pena
tu sabes, a grafia da terra
traz sempre uma dor antiga
agora o verão, agora o verão quando dizes lobo
o verão e os devaneios do repouso, os cães dormem à sombra
nenhuma dor antiga os abala nenhuma
lembrança os alvoroça