terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
viagens de metro
Um pai natal esquecido
continua a subir descolorida
parede no bairro do viso. o nevoeiro
aviva-lhe o vermelho
da roupa. habitar fora
do tempo é uma falsa eternidade.
O metro avança, apaga a imagem.
continua a subir descolorida
parede no bairro do viso. o nevoeiro
aviva-lhe o vermelho
da roupa. habitar fora
do tempo é uma falsa eternidade.
O metro avança, apaga a imagem.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Provérbios para passar os dias
Um burro carregado de lírios
é um poema de Lorca.
*
Quem tem telhados de vidro
adormece a contar estrelas.
é um poema de Lorca.
*
Quem tem telhados de vidro
adormece a contar estrelas.
Etiquetas:
Lorca,
Novos provérbios
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Cidade submersa
submersa a cidade, abraço
húmido e vagaroso. os que vêm
de maio (agora no pousio da escrita)
não entendem a névoa
muito menos a melancolia
das camélias floridas.
procura
procura os esporões
da magnólia (resistiram
a todos os frios)
prontos a ceder à brancura
e talvez descubras errático destino.
húmido e vagaroso. os que vêm
de maio (agora no pousio da escrita)
não entendem a névoa
muito menos a melancolia
das camélias floridas.
procura
procura os esporões
da magnólia (resistiram
a todos os frios)
prontos a ceder à brancura
e talvez descubras errático destino.
sábado, 24 de janeiro de 2009
A pedra cabisbaixa
*
Tu não sabes, a mulher das colinas
esperou por mim a vida toda. Admitiu
o impossível conselho teu: não dorme
para perseverar a juventude.
Uma ave silenciosa diz-me o atalho das colinas,
a mulher sustém um lírio contra o peito.
Peço, peço-lhe que me leve junto do muro,
tu sabes, onde se derramou o sangue.
Ela diz: os campesinos venderam tudo
e abalaram da fome
a pedra cabisbaixa do muro partiu também.
Eu conheço a voz, esta voz rouca
como silêncio do lírio morto.
Paramos num sítio seco, terra pobre
terra pobre, desabrigada da mudez afável
das árvores: a mulher devolve o lírio
à límpida voracidade da luz. E parte
como se fosse ainda rapariga, sem olhar para trás.
Descubro sinais da migração da pedra
o teu nome. Apanho do chão o fogo adormecido.
Rebelde melancolia, a palavra.
Tu não sabes, a mulher das colinas
esperou por mim a vida toda. Admitiu
o impossível conselho teu: não dorme
para perseverar a juventude.
Uma ave silenciosa diz-me o atalho das colinas,
a mulher sustém um lírio contra o peito.
Peço, peço-lhe que me leve junto do muro,
tu sabes, onde se derramou o sangue.
Ela diz: os campesinos venderam tudo
e abalaram da fome
a pedra cabisbaixa do muro partiu também.
Eu conheço a voz, esta voz rouca
como silêncio do lírio morto.
Paramos num sítio seco, terra pobre
terra pobre, desabrigada da mudez afável
das árvores: a mulher devolve o lírio
à límpida voracidade da luz. E parte
como se fosse ainda rapariga, sem olhar para trás.
Descubro sinais da migração da pedra
o teu nome. Apanho do chão o fogo adormecido.
Rebelde melancolia, a palavra.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Mãos na cabeça
Devagar caminhavam, as mãos na cabeça. Viam o fascínio fresco do rio; na lentidão dos olhos adoravam as trutas. Nunca estes homens comeram um peixe. Na Primavera subiam, eles e o gado, ao monte: falavam com as árvores, mascavam bagas azedas. Desciam, no dealbar do Inverno, por caminhos de terra batida. Da margem esquerda do rio, bebiam a limpidez da água para desagasalhar o sono das trutas. Abraçados à noite, endoideciam. Abraçados à noite.
*
Pele branca
A menina tinha a pele branca, azuis os olhos. Azuis, como lagos profundos. Pelo Maio, saía da casa em ruínas: ia com as borboletas à caça de aromas. Colhia flores silvestres, oferecia-as aos camponeses. Em troca recebia vinho e sorrisos. Quando nasceste, súbita tempestade destruiu a nossa aldeia. As enxurradas levaram cabeças de gado e de gente. Ano de penúria. Contou-lhe a velha louca, vencedora do dilúvio. Nesse dia, nova borrasca abafou o povoado. Em clamor, os sobreviventes procuraram a menina. E ninguém, e ninguém a viu: como se diluísse no azul profundo dos olhos. A casa em ruínas foi agora recuperada para turismo no espaço rural.
In O Homem do Saco de Cabedal
*
Pele branca
A menina tinha a pele branca, azuis os olhos. Azuis, como lagos profundos. Pelo Maio, saía da casa em ruínas: ia com as borboletas à caça de aromas. Colhia flores silvestres, oferecia-as aos camponeses. Em troca recebia vinho e sorrisos. Quando nasceste, súbita tempestade destruiu a nossa aldeia. As enxurradas levaram cabeças de gado e de gente. Ano de penúria. Contou-lhe a velha louca, vencedora do dilúvio. Nesse dia, nova borrasca abafou o povoado. Em clamor, os sobreviventes procuraram a menina. E ninguém, e ninguém a viu: como se diluísse no azul profundo dos olhos. A casa em ruínas foi agora recuperada para turismo no espaço rural.
In O Homem do Saco de Cabedal
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Trabalho em vias de extinção
Hoje vi empurrar para a borda alguns amigos. Eu podia fazer parte do grupo. Pela manhã disseram, a cada um, individualmente, O teu posto de trabalho foi extinto. Eu podia fazer parte do grupo, todos nós podíamos. Mas foram eles, os meus amigos. O João Paulo Mendes, o João Fonseca, o João Paulo Coutinho,o Alfredo Mendes, o Luís Bizarro Borges, a Rita Senos, a Paula Silva, a Paula Sanches, o Hernâni Doerllinger, o Manuel Almeida, o Jacinto Velhote, o Paulo Silva, o Paulo A. Silva, o Marcos Cruz, o Hernâni Pereira, o Amin Chaar, o José Reis - o Diamantino Fitas, que sabia do que eu falava quando falava de enxertia, de abóboras ou de navalhas de Palaçoulo. Da terra, das coisas simples da terra. Perdi parte da juventude junto destes camaradas: é duro vê-los tombar da borda. A lista, enfim, é bem mais extensa. Fico por aqui, com um verso do Herberto a rematar a amarga prosa, “Puta de vida subdesenvolvida”.
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