terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O que diz a pedra

Enquanto a noite não desperta os esquivos animais bravios,
uma pedra debruça-se na água, sacia a sede.
Gesto submisso: a pedra bebe cerimoniosa, como se fosse
a última vez. O seu destino será idêntico
ao dos outros seixos que a água afeiçoou,
agora mirrados pelo estio. A vida das pedras
é um mistério. Que língua falam além do silêncio?
Que segredos encobrem quando nos olham
como animais humildes?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Neve

neve. outra vez a neve
palavra tépida e feliz
guardada da infância.

domingo, 4 de janeiro de 2009

OUVE, ISRAEL

Quando fomos perseguidos
era um dos vossos
Como posso continuar a sê-lo
se vos tornais perseguidores?

A vossa aspiração era
tornar-vos com os outros povos
que vos assassinavam
Agora tornaste-vos como eles

Sobrevivestes
aos que foram cruéis para convosco
Acaso a sua crueldade perdura
agora em vós?

Ordenastes aos vencidos:
“Descalçai os sapatos”
Tal como ao bode expiatório
Impeliste-los para o deserto

para a grande mesquita da morte
cujas sandálias são areia
eles porém não aceitaram os pecados
que quisestes impor-lhes

A marca dos pés nus
na areia do deserto
prevalece sobre o rasto
das vossas bombas e tanques

ERICH FRIED

In 100 Poemas sem Pátria,Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1979

sábado, 3 de janeiro de 2009

a palavra treme

a palavra maio treme de frio
quando dita em janeiro. deixemos maio e
seus subterrâneos fogos
em pousio. agora é inverno: a palavra
mais branca que conheço.

Os pós-modernos

O discurso pós-moderno é labiríntico,
descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.
O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjectividade.

Frei Betto
(in Jornal Fraternizar, nº172, Janeiro/Março 2009)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

novos dias

Os dias novos do novo ano. É preciso sol,
um pouco de sol, para pôr a secar a melancolia.
Palavra curiosa, a melancolia: suave de ouvir,
difícil de esconder.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

a vitima troca de papel

O holocausto em Gaza
praticado com frieza pelos mesmos
que sofreram o holocausto.