A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.
José Carlos Ary dos Santos
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Finisterra
Releitura de Finisterra. A gisandra (perturba-me) estende raiz
na escrita límpida. Ressoam as misagras no abandono da casa. Volto à infância, fascinado com as trovoadas de carbureto.
na escrita límpida. Ressoam as misagras no abandono da casa. Volto à infância, fascinado com as trovoadas de carbureto.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Viagem
as palavras nunca
se enganam no caminho
guiam-se pelo silêncio das estrelas
às vezes andarilham no fogo da paixão
se enganam no caminho
guiam-se pelo silêncio das estrelas
às vezes andarilham no fogo da paixão
domingo, 7 de dezembro de 2008
A discutir metáfora se perde o coração
O homem observa, devagar, o rosto da mulher sentada. E a dúvida permanece: as mãos, enfim, as mãos… No resto, nada que indicie contra natura. De contra natura ele, o homem, etiquetava tudo o que não seguisse o trilho antigo das relações afectivas.
Nome?
Gabriela.
Gabriela quê?
Leu o livro?
O seu passaporte?
Jorge disse: personagem carece não.
Personagem!
Sim. E o senhor quem é? Faz pergunta de policial…
A senhora trabalha?
Senhora não, por favor!
A menina.
Menina é gostoso de ouvir, parece sorvete em tarde de Verão. Jorge disse para eu evitar metáfora, fugiu, me desculpe. Ele disse, a discutir metáfora se perde o coração.
Sim. E onde trabalha?
Trabalho não, Jorge é camarada!
Agora é a mulher a ler o homem, devagar. Terá trinta e poucos anos, dente sujo de tabaco, olhos claros, de ofídio diria, se fosse ela a falar e Jorge lhe levantasse o embargo de imagem literária. Encontra impaciência: por ser revistado com os olhos ou por se alongar o desfecho? Um caso como muitos outros. Ouviu histórias extraordinárias. Um marroquino em busca das palavras perdidas na cristandade. Era assim, Jorge perdoa a pobre imagem, arqueólogo de língua morta. Ele dizia procurar, no idioma nosso de hoje, remotos sons de antiga gente. Quem servia? O magro marroquino, com seus gestos limpos, disse diligenciar como emissário da memória – e, assim sendo, nada cobrava pelo ofício, porque, mesmo que o fizesse, receberia o soldo em moeda fora de circulação. Como ninguém vive de ar e do vento, enquanto pesquisava nas cidades, vilas e aldeias, vendia um ou outro tapete tendo em vista o frugal sustento, que dormir africano lugar enxuto, sob as estrelas, sempre acha. A dado momento, o homem desinteressou-se da bondade da história, e avisou o marroquino: quem exerce um ofício, seja ele o de vasculhar restos de língua, paga imposto. Fez expressão de espanto, o norte-africano.
Trabalho não. Sou turista, visito os lugares onde Jorge foi feliz: Viana, em Viana Jorge foi feliz.
A menina está no Porto.
Foi pelo anúncio que descobriu?
Pelo jornal assinalamos certo género de clandestinos.
Se equivoca, senhor. Prostituta não… E sou mulher, sempre meu corpo foi mulher.
“Travesti Cláudia, curta temporada. Activa/Passiva. Peito XXL. Meiguinha. Sem pressas”. Se isto não é prostituição, diga lá o que virá a ser?
Um isco, senhor. A Gisberta, lembra?, que os meninos maltrataram e deixaram lentamente morrer no fosso de prédio abandonado, a história dessa mulher tocou meu coração. Fui ao jornal, paguei anúncio. Sabe para quê? Queria ver o olhar de cliente de transexual: alguns deles transaram com Gisberta, quando Gisberta não era fétida melancolia. Pouca sorte, caiu na rede polícia desfardado.
Ouvi muitas histórias, mas a da Claúdia
Cláudia, não. Sou Gabriela.
Certa vez, um vendedor nómada marroquino disse-me ter pago os impostos ao Estado português com as últimas palavras que terá pronunciado D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Que entre o povo mais recôndito e antigo, demorada pesquisa, foi juntando fragmentos e assim chegaria à derradeira fala do jovem rei, pouco antes de trespassado pela lança inimiga. Eu me comovi com o relato do homem.
Que heróicas palavras foram essas?
Não podia revelar, disse ele. Segredo de Estado. E quando tal mentira pouco fiável disse na minha cara, eu me descomovi e o mandei prender. A sua história, Gabriela, não me comove. Mas como poderei justificar ao meu superior, e o meu superior ao chefe dele, a detenção de personagem que se faz passar por travesti para olhar no fundo dos olhos antigos clientes de Gisberta?
Vem comigo? Jorge tinha um amigo em Viana: confeccionava doce, gosta de doce? Jorge me falou também de bolinhos de bacalhau, sabe o que é bolinho de bacalhau? Certa vez, me falou de um poeta dessa geografia, um tal Pedro Homem de Melo, conhece?
Não.
Uma tarde, o poeta se encontrou aqui no Porto, no café Ceuta, ainda existe?, um escritor e amigo do Alto Minho, assim disse Jorge, chamado Tomaz de Figueiredo. Era o tempo da vossa Ditadura, ouviu falar de Tomaz de Figueiredo?, e a dada passo o poeta informou o amigo de que iam levantar estátua a Salazar, de Salazar ouviu falar… Figueiredo, seu gosto ideológico fazia brando o ditador, disse: “Se a estátua for de merda, eu mesmo ofereço o bronze”. Jorge gargalhava toda a vez que contava a história. Me diga, por que despreza travesti?
Não o entendo, Gabriela.
Se deixe de subtilezas… Vamos a Viana. Como é mesmo o bolinho de bacalhau?
Árvore, 1 de Dezembro de 2008
Nome?
Gabriela.
Gabriela quê?
Leu o livro?
O seu passaporte?
Jorge disse: personagem carece não.
Personagem!
Sim. E o senhor quem é? Faz pergunta de policial…
A senhora trabalha?
Senhora não, por favor!
A menina.
Menina é gostoso de ouvir, parece sorvete em tarde de Verão. Jorge disse para eu evitar metáfora, fugiu, me desculpe. Ele disse, a discutir metáfora se perde o coração.
Sim. E onde trabalha?
Trabalho não, Jorge é camarada!
Agora é a mulher a ler o homem, devagar. Terá trinta e poucos anos, dente sujo de tabaco, olhos claros, de ofídio diria, se fosse ela a falar e Jorge lhe levantasse o embargo de imagem literária. Encontra impaciência: por ser revistado com os olhos ou por se alongar o desfecho? Um caso como muitos outros. Ouviu histórias extraordinárias. Um marroquino em busca das palavras perdidas na cristandade. Era assim, Jorge perdoa a pobre imagem, arqueólogo de língua morta. Ele dizia procurar, no idioma nosso de hoje, remotos sons de antiga gente. Quem servia? O magro marroquino, com seus gestos limpos, disse diligenciar como emissário da memória – e, assim sendo, nada cobrava pelo ofício, porque, mesmo que o fizesse, receberia o soldo em moeda fora de circulação. Como ninguém vive de ar e do vento, enquanto pesquisava nas cidades, vilas e aldeias, vendia um ou outro tapete tendo em vista o frugal sustento, que dormir africano lugar enxuto, sob as estrelas, sempre acha. A dado momento, o homem desinteressou-se da bondade da história, e avisou o marroquino: quem exerce um ofício, seja ele o de vasculhar restos de língua, paga imposto. Fez expressão de espanto, o norte-africano.
Trabalho não. Sou turista, visito os lugares onde Jorge foi feliz: Viana, em Viana Jorge foi feliz.
A menina está no Porto.
Foi pelo anúncio que descobriu?
Pelo jornal assinalamos certo género de clandestinos.
Se equivoca, senhor. Prostituta não… E sou mulher, sempre meu corpo foi mulher.
“Travesti Cláudia, curta temporada. Activa/Passiva. Peito XXL. Meiguinha. Sem pressas”. Se isto não é prostituição, diga lá o que virá a ser?
Um isco, senhor. A Gisberta, lembra?, que os meninos maltrataram e deixaram lentamente morrer no fosso de prédio abandonado, a história dessa mulher tocou meu coração. Fui ao jornal, paguei anúncio. Sabe para quê? Queria ver o olhar de cliente de transexual: alguns deles transaram com Gisberta, quando Gisberta não era fétida melancolia. Pouca sorte, caiu na rede polícia desfardado.
Ouvi muitas histórias, mas a da Claúdia
Cláudia, não. Sou Gabriela.
Certa vez, um vendedor nómada marroquino disse-me ter pago os impostos ao Estado português com as últimas palavras que terá pronunciado D. Sebastião em Alcácer-Quibir. Que entre o povo mais recôndito e antigo, demorada pesquisa, foi juntando fragmentos e assim chegaria à derradeira fala do jovem rei, pouco antes de trespassado pela lança inimiga. Eu me comovi com o relato do homem.
Que heróicas palavras foram essas?
Não podia revelar, disse ele. Segredo de Estado. E quando tal mentira pouco fiável disse na minha cara, eu me descomovi e o mandei prender. A sua história, Gabriela, não me comove. Mas como poderei justificar ao meu superior, e o meu superior ao chefe dele, a detenção de personagem que se faz passar por travesti para olhar no fundo dos olhos antigos clientes de Gisberta?
Vem comigo? Jorge tinha um amigo em Viana: confeccionava doce, gosta de doce? Jorge me falou também de bolinhos de bacalhau, sabe o que é bolinho de bacalhau? Certa vez, me falou de um poeta dessa geografia, um tal Pedro Homem de Melo, conhece?
Não.
Uma tarde, o poeta se encontrou aqui no Porto, no café Ceuta, ainda existe?, um escritor e amigo do Alto Minho, assim disse Jorge, chamado Tomaz de Figueiredo. Era o tempo da vossa Ditadura, ouviu falar de Tomaz de Figueiredo?, e a dada passo o poeta informou o amigo de que iam levantar estátua a Salazar, de Salazar ouviu falar… Figueiredo, seu gosto ideológico fazia brando o ditador, disse: “Se a estátua for de merda, eu mesmo ofereço o bronze”. Jorge gargalhava toda a vez que contava a história. Me diga, por que despreza travesti?
Não o entendo, Gabriela.
Se deixe de subtilezas… Vamos a Viana. Como é mesmo o bolinho de bacalhau?
Árvore, 1 de Dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
A manhã e a neve II
as raparigas a sorrir no meio das abróteas
tu não sabes
os montes floridos empurram-nos para a morte
tudo tudo está ali à tua frente: o desejo
a inexplicável singeleza das coisas, cheiros
suaves cheiros, o canto silente das pedras
um vulcão de vida mínima sob as pedras
tu não sabes
tu nunca te deitaste nas abróteas
a ler lentamente o céu, o rumor do mundo
tu não sabes
os montes floridos empurram-nos para a morte
tudo tudo está ali à tua frente: o desejo
a inexplicável singeleza das coisas, cheiros
suaves cheiros, o canto silente das pedras
um vulcão de vida mínima sob as pedras
tu não sabes
tu nunca te deitaste nas abróteas
a ler lentamente o céu, o rumor do mundo
sábado, 29 de novembro de 2008
A manhã e a neve
novembro
de partida. a neve nos
montes onde nasci
e eu tão longe
dessa súbita alegria juvenil
tu não sabes
tu nunca viste a neve, pássaros
tolhidos, a mão fria a esticar a fisga
tu não sabes nada
não conheces os montes onde nasci
as raparigas a sorrir
no meio das abróteas floridas
de partida. a neve nos
montes onde nasci
e eu tão longe
dessa súbita alegria juvenil
tu não sabes
tu nunca viste a neve, pássaros
tolhidos, a mão fria a esticar a fisga
tu não sabes nada
não conheces os montes onde nasci
as raparigas a sorrir
no meio das abróteas floridas
Acordar ao som do búzio
A aldeia não acordou ao som do búzio, seguido do grito áspero: Botai-la rês, botai-la rês! A aldeia não existe. E a vezeira, aturdida, se tresmalhou para sempre na névoa. Mas o povo de Vilarinho da Furna não abdica. No fim do Outono, regressa, como quem procura a geografia da infância. Aluvião de melancolia, talvez.
Manhã limpa. Vem a neve depois, tímidos flocos. Pouco antes, na ruela de São João do Campo, esvoaçavam pétalas: a imagem de Nossa Senhora da Conceição saía do pequeno templo, no andor florido, sobre os ombros dos homens de Vilarinho. Não renegam a memória, nem a aldeia acuada no fundo das águas.
Desta vez não foi vizinho a cuidar da festa, tarefa rotativa entre o povo. Nem abriu as portas de casa e sentou à mesa um representante de cada família. Nem teve de subtrair ao rebanho uma boa meia dúzia de reixelos para o almoço dos convidados. Não. A festa em honra da padroeira dos vilarinhos mudou de espaço, só queda a profunda devoção. A terra sagrada de Vilarinho da furna dorme sob as águas, amarfanhada de lama e restos de sonhos. Não a puderam trasladar como as pedras da pequena capela do Bom Jesus, reconstruída no alto de São João do Campo. Desse local, no dia 8 de Dezembro, todos os anos, sai e reentra a procissão da Imaculada Conceição, a santa da guerra.
O estrondo dos foguetes cativa alguns curiosos do antigo – quase todos jovens galegos – com máquina fotográfica. Faltaram os moços das povoações vizinhas (Lindoso, Gerês, Covide, Ermida) que permaneciam aos primeiros afagos da noite. Aí exibiam, arte perigosa, os seus dotes de sedução. Uma aparelhagem sonora, no lugar de concertinas e os cantares ao desafio, atira vozes e músicas estranhas sob o silêncio da manhã. E nenhum vilarinho, enfim, aguarda pela noite. É impossível trasladar o sagrado, Vilarinho jamais poderá ser a sua terra.
Nos anos sessenta, o governador civil de Braga, Santos da Cunha, deu mil escudos do dinheiro do Estado para a construção do museu. Um gesto hipócrita, como muitos outros que este homem encontra ao longa da sua peregrinação. Ele queria salvaguardar a memória da Furna, a memória da aldeia. Perdeu a guerra, é certo, porque é inútil pelejar contra escavadoras e seus dentes luzidios. Ele, todavia, conseguiu guardar a perecível alma da aldeia comunitária no museu.
Quando a catástrofe estava preste a consumar-se, ele escreveu, pedindo ajuda, a Jorge Dias (que anos antes havia apresentado como tese de doutoramento, na Universidade de Munique, “Vilarinho da Furna/Uma Aldeia Comunitária”, e, durante os trabalhos de pesquisa esteve hospedado na casa da sua avó). Escreveu à Gulbenkian. A ideia de recolher objectos e depois fazer um museu, disseram-lhe, era boa. Prometeram-lhe uma máquina fotográfica, capaz de amarrar os últimos dias, os últimos gestos comunitários.
O tempo, como no fim de todas as situações de desgraça, corria mais veloz do que o Rio Homem em dias de enxurrada. A máquina de prender imagens não havia de meio de aportar, talvez por Vilarinho ficar longe, num outro tempo. Desencantado com o conforto de boas intenções, ele vai ao Porto e aí compra a máquina que havia de surripiar os derradeiros momentos de Vilarinho da Furna e do seu povo ao impiedoso desapego da água. “Podem desdenhar da qualidade das fotografias, mas são as melhores da minha vida”. E são, de facto: perturbadora emoção e preto e branco.
Esta terceira pessoa do singular, que andarilha no texto, é Manuel Antunes. Chega de Lisboa para a festa em honra da padroeira dos vilarinhos. Ele é a alma do Museu de Vilarinho da Furna, onde estão expostas as suas fotos e espólio recolhido porco antes do dilúvio final. “As pessoas da aldeia que me viam a recolher coisas velhas, pensavam que eu era maluco. Na verdade, não sabia bem por que fazia aquilo, nem sequer ao certo sabia o que era um museu”.
A festa da Imaculada Conceição acaba com uma reunião dos vilarinhos, a meio da tarde, numa das salas do museu. Debandam depois. E um som misterioso, saído de uma sarronca, golpeia os ares – como se acossasse os lobos antigos para o precipício do fojo.
Manhã limpa. Vem a neve depois, tímidos flocos. Pouco antes, na ruela de São João do Campo, esvoaçavam pétalas: a imagem de Nossa Senhora da Conceição saía do pequeno templo, no andor florido, sobre os ombros dos homens de Vilarinho. Não renegam a memória, nem a aldeia acuada no fundo das águas.
Desta vez não foi vizinho a cuidar da festa, tarefa rotativa entre o povo. Nem abriu as portas de casa e sentou à mesa um representante de cada família. Nem teve de subtrair ao rebanho uma boa meia dúzia de reixelos para o almoço dos convidados. Não. A festa em honra da padroeira dos vilarinhos mudou de espaço, só queda a profunda devoção. A terra sagrada de Vilarinho da furna dorme sob as águas, amarfanhada de lama e restos de sonhos. Não a puderam trasladar como as pedras da pequena capela do Bom Jesus, reconstruída no alto de São João do Campo. Desse local, no dia 8 de Dezembro, todos os anos, sai e reentra a procissão da Imaculada Conceição, a santa da guerra.
O estrondo dos foguetes cativa alguns curiosos do antigo – quase todos jovens galegos – com máquina fotográfica. Faltaram os moços das povoações vizinhas (Lindoso, Gerês, Covide, Ermida) que permaneciam aos primeiros afagos da noite. Aí exibiam, arte perigosa, os seus dotes de sedução. Uma aparelhagem sonora, no lugar de concertinas e os cantares ao desafio, atira vozes e músicas estranhas sob o silêncio da manhã. E nenhum vilarinho, enfim, aguarda pela noite. É impossível trasladar o sagrado, Vilarinho jamais poderá ser a sua terra.
Nos anos sessenta, o governador civil de Braga, Santos da Cunha, deu mil escudos do dinheiro do Estado para a construção do museu. Um gesto hipócrita, como muitos outros que este homem encontra ao longa da sua peregrinação. Ele queria salvaguardar a memória da Furna, a memória da aldeia. Perdeu a guerra, é certo, porque é inútil pelejar contra escavadoras e seus dentes luzidios. Ele, todavia, conseguiu guardar a perecível alma da aldeia comunitária no museu.
Quando a catástrofe estava preste a consumar-se, ele escreveu, pedindo ajuda, a Jorge Dias (que anos antes havia apresentado como tese de doutoramento, na Universidade de Munique, “Vilarinho da Furna/Uma Aldeia Comunitária”, e, durante os trabalhos de pesquisa esteve hospedado na casa da sua avó). Escreveu à Gulbenkian. A ideia de recolher objectos e depois fazer um museu, disseram-lhe, era boa. Prometeram-lhe uma máquina fotográfica, capaz de amarrar os últimos dias, os últimos gestos comunitários.
O tempo, como no fim de todas as situações de desgraça, corria mais veloz do que o Rio Homem em dias de enxurrada. A máquina de prender imagens não havia de meio de aportar, talvez por Vilarinho ficar longe, num outro tempo. Desencantado com o conforto de boas intenções, ele vai ao Porto e aí compra a máquina que havia de surripiar os derradeiros momentos de Vilarinho da Furna e do seu povo ao impiedoso desapego da água. “Podem desdenhar da qualidade das fotografias, mas são as melhores da minha vida”. E são, de facto: perturbadora emoção e preto e branco.
Esta terceira pessoa do singular, que andarilha no texto, é Manuel Antunes. Chega de Lisboa para a festa em honra da padroeira dos vilarinhos. Ele é a alma do Museu de Vilarinho da Furna, onde estão expostas as suas fotos e espólio recolhido porco antes do dilúvio final. “As pessoas da aldeia que me viam a recolher coisas velhas, pensavam que eu era maluco. Na verdade, não sabia bem por que fazia aquilo, nem sequer ao certo sabia o que era um museu”.
A festa da Imaculada Conceição acaba com uma reunião dos vilarinhos, a meio da tarde, numa das salas do museu. Debandam depois. E um som misterioso, saído de uma sarronca, golpeia os ares – como se acossasse os lobos antigos para o precipício do fojo.
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