sábado, 22 de novembro de 2008

[nem uma palavra]

nem uma palavra. dura, áspera, cruel
que fosse. apenas o silêncio a trepar
como glicínia pelo frio de novembro

nem uma palavra, o gume
da despedida. nem uma palavra

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Magnólias

As magnólias mostram os seus esporões. nem tudo
é desagradável em novembro

Melides

Os pinheiros mansos
enlaçam os ramos: devagar afeiçoam
imensa frança que abriga as raízes
da secreta labareda do estio.
por vezes, os pinheiros mansos
extenuados de tanto sul, tanto sol
copiam o rumor impedido
do mar: esvoaçam então esvoaçam
na imobilidade perpétua.
e os que se tresmalham do cardume
em árido silêncio se embrulham
morrem como homens tocados de melancolia

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Bestiário para as crianças

Gavião


No século passado, um poeta
rasurou o g ao gavião.
A partir daí também ele pôde voar
voar com a nova palavra.

domingo, 9 de novembro de 2008

Novembro

novembro
talvez seja o mês cruel
nem o fogo dos dióspiros
espanta a melancolia. volto
na palavra quotidiana
como quem reparte o pão. tu sabes,
como quem partilha o vinho
novo. pela palavra aqueço
as mãos em silêncio pela noite dentro.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O terceiro ciclista

A Papiniano Carlos



Os ciclistas rompem exaustos
na bruma. homens de outro tempo
pedalam no subúrbio libertos do medo
urbano. há um que fuma devagar
enquanto pedala como se quisesse
adensar a bruma. outro traz relógio
no pulso e uma mola afasta as calças
do óleo da corrente. o terceiro ciclista
pedala pedala
pedala: mavioso movimento
na direcção talvez do futuro
deixa a palavra na miséria do subúrbio
nas grandes alamedas
no largo de longínquas aldeias

O ciclista que traz o relógio no pulso
diz: “desperdício, companheiro.
vão pisar as palavras: virá a primavera
não botarão flor!” o terceiro ciclista
mantém o movimento o gesto de semeador
a viagem interminável viagem
na direcção talvez do futuro
sabe que o frágil coração da palavra
é inabalável
imperecível como a vida dos sonhadores.


Árvore, 17 de Outubro de 2008

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O rebanho

Somos árvores, sem nome como os animais bravios. Acossadas, árvores acossadas: como animais bravios. O fogo persegue-nos desde o início dos tempos. Cerca-nos. Como se fôssemos animais bravios. O fogo, cego caçador cego, levanta paliçadas de chamas à nossa volta – isola o caminho, todos os caminhos. E nós somos (o fogo não sabe) o rebanho mudo que ascende a serra com os pés presos no chão. Só é possível o movimento (ele não sabe) quando uma das nossas sementes, arremessada pelo vento, acha abrigo na penúria da terra. Cego, o fogo é cego: rouba-nos (rouba e fica com nada) a imperceptível claridade e alumia a noite. Crema a cegueira da dúvida. Na natureza, o fogo não sabe, o luto revivifica. Da devastação surgirá uma flor. E o rebanho, da imobilidade perpétua, irá beber aí a brancura e começar de novo a caminhada no dorso da serra.