terça-feira, 29 de julho de 2008
veados floridos (II)
rolam na cabeça como veados feridos
a zagalote: procuram a morte
no local mais obscuro do arvoredo
procuram a morte
as palavras: veados floridos?
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Bestiário para as crianças
Homem que desejou
ser ave: para, rente às nuvens,
provar que “a terra é azul
como uma laranja”.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
[Arremessar a pedra]
arremessa: longínqua palavra, artesanal como fisga, como enxó, escopro ou almofia. E, ao mesmo tempo, perfeita, impenetrável: parece muro trabalhado de quinta com uma cancela rigorosamente ao centro.
(in Brévia)
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Cativos na própria casa
Vive sozinha, num quarto andar. As duas “operações às artroses” não lhe retiraram a mobilidade: faz limpeza, cozinha, andarilha pela casa. Apenas por dentro da casa. Irene Faria, 84 anos, “há ano e meio” não sai à rua. As pernas, conhecem bem o caminho, mas as “48 escadas”, de madeira rangente, assustam. Agora assustam. “Descer, de vagarinho, podia. Mas subir...”.
Na zona da Ribeira e noutros locais do centro histórico, como Irene, “criada de servir” que aprendeu a falar francês, há dezenas de casos idênticos. Veio a velhice, a casa, o doce lar, virou cárcere. Vivem nos últimos pisos - as rendas aí eram menos tormentosas para gente simples - de prédios antigos, sem elevador. Em grande parte das casas antigas, entretanto recuperadas, o problema subsiste: a arquitectura não permite ou adia-se, por questões de poupança, a instalação do ascensor.
O presidente da Junta de S. Nicolau, freguesia que integra a Ribeira, conhece bem o problema. Jerónimo Ponciano, 73 anos, mora, há décadas, num quinto andar da Rua de Belmonte. Para este beirão, natural da aldeia de Monteperobolso, os “80 degraus” de escadas funcionam ainda como acesso. O mesmo não dirá a sogra, Altina Marques, 93 anos, que reside na mesma casa.
Há situações em que esta espécie de prisão domiciliária, pena a cumprir por gente que comete o crime de envelhecer, não é total. Ana Pinto, 74 anos, vive com um filho doente e dois gatos (a Boneca e Pretinho) nas águas furtadas de prédio de cinco pisos. A escadaria é imensa, a pique. Ana desce uma vez à rua, pela manhã. O resto do dia passa-o em casa a ver televisão, indiferente ao intenso cheiro a urina de felino.
A companhia nocturna de Irene é também a televisão. “Fica ligada a até à meia noite”. Durante o dia, deixa ir o olhar no voo das gaivotas (“vêm comer aqui ao peitoril da janela”), a viagem termina na outra margem do rio, em Gaia, onde trabalhou muito tempo. Da outra janela, da parte da frente, vê a ruela que a levava ao centro da cidade. E os gatos a lamber o sol, no mundo que lhe está vedado.
Uma vez por semana abre a porta a um funcionário do Centro Social Sá Homem, que lhe traz as compras para uns dias. Irene é viúva. O amor tardio com o taxista com quem casou, tinha então 47 anos, não gerou nenhum herdeiro. Uma sobrinha visita-a aos domingos; às vezes a solidão é interrompida com a passagem da assistente social ou do pároco da S. Nicolau e da Vitória. Sempre que é solicitado, padre Jardim Moreira sobe o escadaria de madeira para confessar estes deserdados fiéis.
Na Ribeira e restante geografia de S. Nicolau, segundo os dados do pároco, existem não mais de “900 habitantes”. Quando aqui chegou, em 1968, a população ultrapassava as dez mil almas. Uma parte significativa dos sobreviventes atingiu o patamar da terceira e idade. Moram no 3, 4 e 5 pisos. “Só descendo numa cadeirinha dos bombeiros, senão não saem”, diz padre Jardim. “Isto é o drama de muito gente no centro histórico”.
A privação da rua, da sol, de caminhar pela cidade, mesmo que seja breve o roteiro, agrava a solidão. Outra mazela arrasta a imobilidade, a clausura doméstica: como vivem fechados, o ar não se renova, não se regenera, no espaço habitável. Quase todos sofrem, ou vão sofrer, de problemas respiratórios que precipitam a morte.
Pouco ou quase nada podem fazer. As reformas pequenas não lhe permitem o sonho de mudar para casa menos desumana, e o acesso a lar terceira idade também se afigura difícil. Irene acalenta a esperança de acabar o restos do dias no lar do centro social da paróquia da Vitória.
“Quero ir para o lar para não falar sozinha”. Irene é uma das candidatas aos dez lugares disponível deste equipamento social, “com elevador”, pronto a abrir. “Estamos à espera que a Câmara do Porto passe a licença de habitabilidade”, refere padre Jardim.
Desta vez, como tinha sido avisada de véspera, Irene Faria pediu a um vizinho para nos abrir a porta rua. Nas outras visitas, o chaves voam lá do alto da prédio, embrulhadas num pano de flanela para amortecer a queda no lajedo.
(Publicado no DN)
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Agora é Verão
tempo, espantadiço como as aves.
Verão, agora é verão. Entro na brévia.
Os pardais aturdidos pelo calor abrem
as asas em súplica, o latido sedento
dos cães transpõe a sebe – agita o sono
do gato enrolado na sombra da hidranja.
(in Brévia, ed. Hidra)
sábado, 28 de junho de 2008
O acervo
Em tempos, passou por aqui um homem. Comprava crucifixos, espingardas de carregar pela boca, relógios de bolso se relógios de bolso alguém ainda tivesse herdado. O cavalheiro demorava-se na prosa de alfarrábios e até pelo casco das nossas antigas comédias umas moedas permutou. Em nome e com dinheiro do Estado, desceu à província a reunir acervo. Nós lhe dissemos,
acervo, na nossa terra, nunca houve nos pastos do gado.
E ele sem escarnecer da ignorância, desatou o mal-entendido que as palavras sem memória acirram. Andava a recolher espólio para três museus. Um deles, o museu da palavra, iria iluminar os livros antigos, cascos e outros escritos da mão humana. Envaidecidos por nossa pobreza ser matéria cultural, confessámos que havia um vizinho desajudado do siso: falava dia e noite; se fingia trégua, seus olhos seguiam a infinita lengalenga. E isto perguntámos: poderia esse vizinho, palavra viva, tornar-se acervo. O homem disse: “Peça de museu, mesmo com folga à segunda-feira, bárbara pena se afigura”. Quem condena veste a toga da cor dos corvos ou é Deus, nós nem uma coisa nem a outra podíamos ser. De forma polida, como a pedra que nos libertou da servidão, advertimos: ele se achava, há muito, tolhido na cama e daí se levantaria quando o Senhor o chamasse, o Senhor ou o Filho: experiente a pôr infelizes e outros desamparados a caminhar ledos como gazelas. Que palavras diz o enfermo? Quis saber, a imaginar o sucesso. Espantoso, dissemos nós, ele não junta as letras nem maneja a escrita. Mas pronuncia vocábulos novos como frutos – quem o ouve, colhe a alma das palavras.
Uma vez, no meio da sua tempestade interior, proferiu uma coisa inquietante: que a nossa aldeia iria voar. Como ave pesada, tosca, voaria para lugar nenhum. A alquimia de alar o que nasceu cativo disse ele se chamar energia eólica. Nunca tínhamos ouvido nada assim, um povoado, com seus fogos, almas e reses, a esvoaçar numa imaginação maravilhosa. Guardámos a alma eólica e jogámos no olvido a profecia. Vai daí, logo quis o homem visitar o desajudado. Dissemos, ainda bem: o senhor o absolverá do martírio. A palavra martírio e respectiva alma parecem exageradas, mas se o nosso companheiro não pertencer à restrita irmandade dos mártires, nenhum outro acharemos sob a rosa do sol. Nem come, nem bebe. Mantém limpa a roupa da cama, não gasta a ligeira reforma da Casa do Povo na botica, nem na venda. É um acamado enxuto. Independente.
Antes de ver e ouvir o acamado, íamos a caminho, falou-se da incorruptibilidade da alma,
Da palavra alma,
perguntou.
Da alma do vizinho,
dissemos.
Está morto?
Vivo não está ou parece não estar: mas fala como se tivesse pressa de esvaziar a alma das palavras.
Os olhos devastados de tristeza de um cão preto, sentado na soleira, esperam-nos,
Eis o homem,
dissemos.
Um cão!
Em certas tardes de Junho, torna-se perdigueiro. Não tenha medo.
O cão fala?,
insiste..
O cão é a alma, cheia de palavras inauditas.
Quero ver o homem sem alma.
É desagradável. Imagine alguém sem olhos a sorrir… O senhor vê a alma, que importância tem o resto?
Imóvel, o homem observar o perdigueiro sentado e triste. Aquele silêncio todo fez-me lembrar imagem de caça: o homem era o cão marrado; a alma, o bando das perdizes. E forma-se bátega repentina: chuva grossa, morna, chuva de Maio, que exacerba o cheiro das giestas,
Vou levar o cão,
afirma o homem, pressentindo a noite e os seus medos a descerem os montes.
Se o convencer, é seu.
Levou a alma?
Nem o cão, nem a minha gatilheira… como houvera eu de caçar perdigões ferrados nos matagais sem o Tejo!
Tejo não é nome de perdigueiro.
Também faz parte dos devotos de S. Huberto?
Não, eu não caço. Gosto de repousar os olhos na paisagem… A alma falava verdade. Para já são os montes em redor da aldeia: veja como as grandes hélices ensaiam o voo.
sábado, 21 de junho de 2008
Escrevo o dia
com os olhos. talvez de pouco valha
esta escrita intransferível
hoje é verão
escrevo o dia. estou vivo
sentado na sombra
do estio. sei que não vou morrer, não vou
morrer no outro século