quinta-feira, 22 de maio de 2008

Trocar de cravo

*
Tinha um cravo na mão,
mãe, guardo-o ou não?
a mãe disse, a alegria
divide-se
fui para a rua, juntei-me
ao povo
sempre com o cravo na mão
veio a noite, nasceu o dia.

muito anos se passaram
tenho ainda o meu cravo,
mãe, guardo-o ou não?

a mãe diz-me, a memória
transforma-se.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Laranjas verdes

No silêncio do olhar dos gatos há camadas de memórias, sedimentam-se, em aluvião. Matéria de aluvião. Mas que guardam, que defendem ou preservam, todos estes gatos em redor do castelo de Castro Marim? E o olhar dos novos felinos, descobre o homem, herda o mesmo silêncio: adensa a espessura de vida para vida. Matéria de aluvião, a memória. Que desvario cometeram os gatos, quem os condena a arquivar o silêncio?

*


O homem desce do castelo, não traz lança em riste, nem uma pedra em cada mão. Inerme, liberto do homem anacrónico. Desiludido, contudo, desiludido por não decifrar o silêncio acocorado nos olhos do gato. Perto da noite, detém-se num pequeno terreiro com laranjeiras, um lago ao centro, brancura limpa das casas em redor. Na soleira da porta, uma mulher e uma menina em silêncio. É Agosto, pensa o homem, incomodado com a quietude infantil. Aproxima-se do lago, com seu chafariz emudecido, e descobre quatro laranjas verdes no fundo da água.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A PEDRA CABISBAIXA

*

Tu não sabes, a mulher das colinas

esperou por mim a vida toda. Admitiu

o impossível conselho teu: não dorme

para perseverar a juventude.

Uma ave silenciosa diz-me o atalho das colinas,

a mulher sustém um lírio contra o peito.

Peço, peço-lhe que me leve junto do muro,

tu sabes, onde se derramou o sangue.

Ela diz: os campesinos venderam tudo

e abalaram da fome

a pedra cabisbaixa do muro partiu também.

Eu conheço a voz, esta voz rouca

como silêncio do lírio morto.

Paramos num sítio seco, terra pobre

terra pobre, desabrigada da mudez afável

das árvores: a mulher devolve o lírio

à límpida voracidade da luz. E parte

como se fosse ainda rapariga, sem olhar para trás.

Descubro sinais da migração da pedra

o teu nome. Apanho do chão o fogo adormecido.

Rebelde melancolia, a palavra.

sábado, 10 de maio de 2008

Maio todo

na escrita é que me engano
escrevo maio de memória
como quem procura comer a rubra
palavra cereja

maio na folhagem das tílias
do liceu sá de miranda
onde comigo me desavim
as raparigas bonitas que a minha timidez
não pôde amar. maio todo
quando o sangue novo atiça
tenros melros e seu tosco esvoaçar
contra a verdura
maio diz-me a memória da escrita

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Hortelã intransitiva

que procuro na borrasca de maio
as cerejas da infância as trutas
na manhã de ervas húmidas nos rios de basto
o rio de painzela onde emergiam lírios
nos açudes
era aí entre as açucenas que o meu pai
longe da servidão da velhice pescava as trutas
o silvo do fio retesado, a frágil cana da índia vergada
e trémula como vara de vedor .
atapetava de hortelã o cacifo de vime
a morte das trutas cheirava bem.

que procuro na borrasca de maio
a hortelã, esse cheiro da hortelã
felicidade indizível talvez intransitiva
longe da ignorância da velhice o meu pai
a bater lentamente o painzela
macieiras floridas debruçadas na água
campos lavrados em redor. um cão faminto e enfurecido
ladrava do fundo do medo nós
o pai e eu passos cuidadosos
para não assustar o rumor límpido da água .

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Sangue circunscrito

os que vêm de maio colhem rosas bravas
nos campos de basto
um homem diz, o esplendor
deflagra no silêncio das violetas no rio olo
a água liberta das tormentas do inverno afaga
com doçura os seixos a negrura do xisto. o esplendor de maio
diz a mulher que na infância fazia brincos de cereja
são estas rosas bravas sangue vivo
circunscrito na aluvião de verdura

os que vêm de maio param em refojos
bebem vinho – memória verde de pobres camponeses
caídos na paisagem

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Na infância a mãe

viageiros floridos
como gamos na época de seduzir
os que vêm de maio olham-me
uma mulher diz , na infância a mãe
pediu-me para retirar o caroço
de cerejas. Passei uma tarde na paciente tarefa
que um bolo escondeu. Desde esse dia gosto de as ver
gosta da palavra que lhes dá o nome, mas nunca
mais comi cerejas, nunca mais as suspendi nas orelhas
como se fossem brincos – gesto sensual irrepetível
como toda a juventude é.

os que vêm de maio cercam a mulher
a companheira de viagem como se quisessem
apartá-lo do meu olhar