quinta-feira, 10 de abril de 2008
Sul
como a frescura da água
numa tarde do sul
por que digo isto agora
aos que vêm de maio?
Eles não me ouvem
fecharam a janela sobre a manhã
terça-feira, 8 de abril de 2008
O Comum da Terra
Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.
Eugénio de Andrade
12 Poemas para Vasco Gonçalves, Ed. Inova, col. O oiro do dia
Um reciário à boleia
Observa o rio enquanto caminha, parece pescador de pluma a traçar mentalmente o lance. “A morada das trutas será sempre a limpidez da água”, diz o homem. E logo entristece, envolto nessa trágica fragilidade de sabedoria antiga. Atravessa a ponte: cessa num círculo de sombra, espessa e balsâmica, que um cedro antigo recorta na estrada. “Os romanos inçaram os nossos rios, traziam de muito longe as trutas
O homem entra devagar, como se fosse muito velho. O automóvel arranca, veloz. O homem pergunta,
Sabe o que é um odre?
É insensato deitar vinho novo em odre velho: rompe-se o odre, perde-se o vinho,
diz o motorista.
O homem pergunta,
O senhor é padre?
Não, sou gladiador. Obrigado por me ter poupado a vida.
sábado, 5 de abril de 2008
Fogo harmonioso
das glicínias, fogo harmonioso da terra
nas mãos. Se param a ver a paisagem
ou a secreta paixão das aves, o silêncio se faz raiz
depressa brotam ramos, flores e frutos.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Bestiário para as crianças
Automóvel
Reproduz-se mais do que os ratos
rói a paisagem, viola o íntimo das cidades.
O governo de certos países considera
uma praga este irrequieto bicho.
Homem
animal que aprendeu a marcha
bípede e, depois, a conduzir automóvel
ainda não descobriu o caminho da felicidade.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Digo, a voz
das aves que poisam na verdura da manhã.
Ou será outra coisa, o inaudito da terra
seiva brusca por dentro do corpo.
Digo, a voz: salta a rã do nenúfar
pelo estalido dos passos
assusta a água, levanta a brisa
rumor, no rumor do bosque andarilho.
terça-feira, 1 de abril de 2008
As palavras
As palavras armazenam-se como torrões maduros
São flexíveis à memória são marinheiros em terra
Acontece dizer: levantem-se e caminhem
Mas quem somos e que hábito envergamos?
As palavras entontecem
Quando dispersas levantam rumos vários
José Afonso